janeiro 19, 2009

Shortlist dos filmes para Oscar Melhor Filme Estrangeiro

Segundo o site incontention.com já são conhecidos os 9 filmes a partir dos quais sairão as nomeações para o Oscar Melhor Filme Estrangeiro. O italiano Gomorra fica de fora, tal como o português "Aquele Querido Mês de Agosto".

Lista dos filmes:

“3 Monkeys” (Nuri Bilge Ceylan — Turkey)
“The Baader Meinhof Complex” (Uli Edel — Germany)
“The Class” (Laurent Cantet — France)
“Departures” (Yojiro Takita — Japan)
“Everlasting Moments” (Jan Troell — Sweden)
“The Necessities of Life” (Benoit Pilon — Canada)
“Revanche” (Gotz Spielmann — Austria)
“Tear This Heart Out” (Roberto Sneider — Mexico)
“Waltz with Bashir” (Ari Folman — Israel)

O grande favorito à vitória final é o animação "Waltz with Bashir", de Israel. Uma nomeação para Laurent Cantet e Nuri Ceylan já seria óptimo.

Top10 2008 do jornal "Público"

As escolhas dos críticos do jornal "Público"

1. O Segredo de um Cuscuz - Abdellatif Kechiche
2. A Turma - Laurent Cantet
3. Este País Não é para Velhos - Joel e Ethan Coen
4. Austrália - Baz Luhrmann
5. Gomorra - Matteo Garrone
6. Quatro Noites com Anna - Jerzy Skolimowski
7. Nós controlamos a noite - James Gray
9. Darjeeling Limited - Wes Anderson

"Nós controlamos a noite" e "Antes que o Diabo Saiba que Morreste" no top, e There Will Be Blood e Into the Wild de fora? Austrália e Darjeeling Limited, mas "he Assassination of Jesse James..." de fora?

janeiro 07, 2009

Burn After Reading (ou antologia Coen)

Burn After Reading - 4/10
de Joen & Ethan Coen


É notável a diversidade da obra dos Coen: com Blood Simple (8/10) tiveram uma primeira obra marcante que estabeleceu desde logo a capacidade em criar um universo próprio para cada filme, explorando o gosto por detalhadas composições com setups visuais cuidados (o famoso plano das balas que ao perfurarem a parede abrem pequenas linhas de luz na escuridão); obras fortemente estilizadas, apropriando-se de linguagem e símbolos de determinados géneros, como em Miller's Crossing (6/10 - manual de filmes de época sobre gangsters), ou The Hudsucker Proxy (6/10 - investimento noutro filme de época, américa nos anos 50, num ambiente com tom de fantasia ampliado pelo uso de slow motion e manipulação do tempo), ou até The Man Who Wasn't There (5/10 - manual de luz e sombras num filme a preto e branco, com tons de film noir) e Oh Brother Where Art Thou? (8/10 - réplica de outra altura da história americana, com experimentação em tonalidades anormais e introdução de elementos musicais), obras onde por vezes o conteúdo visual arrasa o pouco conteúdo narrativo, mas mesmo assim sempre obras interessantes pela amplitude e multiplicidade das ideias visuais, uma vez que cada obra contém um pequeno mundo construído de raiz pela imaginação dos Coen, em que os personagens são parte integrante e produto da época descrita.

É também notável a variação entre temas e tom adoptado nos diferentes filmes: desde obras sombrias e duras (Blood Simple, Miller's Crossing, The Man Who Wasn't There), onde a estilização absoluta domina o argumento que muitas vezes recorre a influências do género de filme escolhido (a história pouco original de filme noir para o filme preto e branco); a comédias muito mais típicas na sua estrutura (Raising Arizona - 8/10, exagero da criminalidade idiota e retrato do sul; The Big Lebowski - 9/10, elogio à preguiça stoner californiana com mais criminalidade idiota), que facilmente obtém resultados fantásticos quando o estilo acompanha o lado caricatural das personagens e eventos; incluindo obras que misturam um tom narrativo sério mas inspirado em temas e escolhas visuais mais exóticas, quer na criação de personagens e de uma linguagem visual única, adoptando pontos de vista emocionais fora do normal que contribuem para uma visão única no cinema americano recente (Fargo - 10/10, a corrupção da violência e ganância num cenário único; Barton Fink - 7/10, um escritor novo em Hollywood começa a ter pesadelos reais; No Country For Old Men - 7/10)... no entanto existem também filmes intermédios, quase inconsequentes, que não acrescentam nada de novo e não resultam da construção do tal mundo próprio mas antes tangentes a realidades mais comuns de outros filmes e que habitualmente nos Coen aparecem em experiências na comédia: The Ladykillers (5/10), Intoreable Cruelty (4/10) e infelizmente, é o caso de Burn After Reading.

Depois do Oscar para melhor argumento ganho com Fargo, um momento até então impensável para o cinema indie americano, os Coen fizeram uma comédia despreocupada e pouco "digna" de um vencedor de Oscar, tendo em The Big Lebowski um dos seus maiores sucessos: aí, a liberdade criativa e a liberdade em relação a expectativas de agradar aos críticos e público do mais intelectual Fargo permitiu-lhes criar uma colecção de personagens e eventos caricaturizado ao máximo (o Jesus de John Turturro), com devaneios formais (as cenas dos sonhos de The Dude). Depois do ainda mais intelectual No Country For Old Men com o qual ganharam o Oscar de Melhor Filme, a ideia terá sido a mesma, mas com tons de tentativa de agradar aos que admiraram a sua dissidência original em relação a Fargo, com novo escape pela comédia exagerada, mas o resultado fica longe do alcançado com The Big Lebowski: um início promissor, com a ideia de explorar o conceito de uma cidade como Washington, onde grande parte da população ou é político ou trabalha para um ou está envolvido com uma qualquer agência secreta ou é jornalista, abordado muito ao de leve logo no início num diálogo durante um jantar, mas o enredo acaba por fixar-se em 3 funcionários de um ginásio local (entre os quais Brad Pitt, num dos poucos pontos interessantes do filme, e uma Frances McDormand deslocada) e os seus comportamentos quase deliberadamente idióticos (junto com piadas inócuas sobre relacionamentos e preocupações sobre aparência pessoal), com a personagem de George Clooney cujo papel parece ser o de confundir o espectador e um Malkovich a repetir o estereótipo de excêntrico loser. As aventuras das personagens têm alguns momentos verdadeiramente engraçados quando envolvem a ideia de conspiração internacional mas o mais desapontante é o final e a personagem do Chefe que vai fazer sentido de toda a trapalhada, ou melhor, explicar que a trapalhada dos outros não faz sentido nenhum apesar de ser a razão de ser do filme - uma má colagem da personagem do cowboy em The Big Lebowski, que aparece no final do filme a comentar sobre a história, a explicar que a vida é assim e não há nada a fazer...

Heavy Metal in Baghdad

Heavy Metal in Baghdad (2007) - 7/10
de Suroosh Alvi e Eddy Moretti

É um documentário sobre a história de 4 jovens músicos iraquianos que são membros da única banda de Heavy Metal no Iraque. Aliás, provavelmente a única banda do mundo cujo local de ensaios foi bombardeado pelos EUA. A única banda cujo local do último concerto foi destruído por um atentado das milícias locais. Isto é, não é o típico documentário musical. Aliás, começa logo com a descrição das dificuldades em fazer o filme e a decisão do realizador de viajar até ao Iraque à procura dos membros da banda, e o que ele encontra em Baghdad em plena guerra civil em 2007. O ínicio do filme mostra-nos em primeira mão imagens que raramente chegam pelos media ocidentais (uma das histórias que descobrimos é que os jornalistas ocidentais não saem da Green Zone, antes pagam a cameraman iraquianos para ir buscar imagens à cidade e depois fazem a narração da notícia por cima dessas imagens): cidade em que reina a insegurança com snipers escondidos, carros-bomba à espreita, tiroteios ao longe e raptos a qualquer momento do dia - qualquer documentário nessa altura de Baghdad por qualquer que seja o motivo do filme teria que descrever a situação geral da cidade, dominada por miséria, pobreza, falta de electricidade ou água constante, impossibilidade de circular livremente nas ruas, recolher obrigatório à noite – e que neste filme é melhor exemplificado pela voltas de carro que o realizador é obrigado a tomar sempre que sai à rua, sempre rodeado de seguranças privados, e pelos planos de noite em que o realizador olha da varanda do seu quarto de hotel os tiroteios e explosões que decorrem ao longe, reduzido ao espaço da varanda pois de noite não há nada a fazer, apenas observar de longe. Um retrato eficaz de um mundo que nos chega a casa todos os dias nos telejornais e que aqui é exposto simplesmente por a câmara estar no local.

A segunda parte mostra-nos a história surreal destes músicos e a situação no Iraque através dos seus olhos – existem vários níveis na abordagem: desde a situação de insegurança e desconfiança completa (quando a policia é apenas outra milícia e circular na rua é uma dificuldade diária), do isolamento do resto do mundo e falta de meios para ter uma vida normal (uma simples deslocação a casa do amigo é um perigo quotidiano), até às especificidades de ser músico de heavy metal no Iraque: o facto de não poder usar cabelo comprido ou o perigo de utilizar t-shirts de bandas americanas, isto é, a pressão do extremismo islâmico sobre a sociedade – que aumentou exponencialmente após a queda do regime de Saddam, substituído por vários líderes fundamentalistas religiosos – e consequente dificuldade em ser aceite pela música que gostam pelo perigo que o fascínio pela cultura ocidental numa tal sociedade envolve, ou a simples dificuldade em praticar música ou dar concertos. Vemos em primeira mão os efeitos da invasão americana e o caos diário em Baghada: pouco depois do ínicio da guerra os membros da banda, apesar de viverem todos na mesma cidade, deixam de se falar ou encontrar uns com os outros porque é impossível viajar em segurança por alguns bairros e a precariedade das condições quotidianas força-os a terem outras preocupações. Uma observação interessante é feita por um dos membros da banda ao rejeitar os estereótipos de separação sectorial, afinal ele, um Sunita é casado com uma Xiita - mas o filme nunca tenta politizar a história deles.

Existe tambem um lado humanista importante exactamente na rejeição de estereótipos por parte do filme – afinal estes 4 jovens apenas querem ter a possibilidade de ter um escape na música, de poder tocar e dar concertos, mostram um forte fascínio cultural pela cultura metaleira produto do ocidente, os cabelos longos e t-shirts pretas, aliado ao facto de falarem fluentemente inglês, até com influências como repetir palavras típicas (“dude”) de uma juventude americana idealizado pelo contacto que estes iraquianos têm com essa cultura através de filmes ou revistas – permite construir um retrato eficazmente humano das individualidades destes 4, diferentes de quaisquer generalizações e preconceitos de que são todos terrorristas-fanáticos sem cultura, humanizando estes iraquianos ao os colocar num nível semelhante a outros jovens músicos rebeldes em qualquer outro lado do mundo, e que aqui são forçados a subsistir em situações de extraordinárias dificuldades. É aqui que sobressai o lado do filme como um triunfo humanista: a visão do realizador que se concentra nestes 4 jovens como músicos aspirantes, certamente que em circunstâncias impossíveis, mas nunca reduzidos à sua étnia ou condição.

O filme mostra também outra consequência da miséria iraquiana, o êxodo para a vizinha Síria onde são cidadaos de segunda (o sentimento de estar longe de casa), onde esforços para continuar a sua veia musical representam a importância da música nas suas vidas para sobreviver ao quotidiano e a um futuro sem esperança.





dezembro 05, 2008

Body of Lies

Body of Lies (2008) 
5/10
de Ridley Scott

Leonardo DiCaprio in Body of LiesBody of Lies é um filme-fórmula do tipo thriller político global, com marcas de filme de espionagem high-tech e considerações sobre o estado actual do terrorismo nas relações internacionais. É inferior ao filme Spy Game (7/10) de Tony Scott no mesmo conceito de agente no terreno liderado por alguém mais velho a operar à distância no aparelho burocrático em Washington, especialmente no aspecto de construcção eficaz de um ambiente tenso sem nunca atingir o sentido de urgência ou intriga inteligente do filme com Robert Redford.

É também repleto de pequenas reflexões e críticas tépidas sobre as políticas americanas pós 9/11, especialmente sobre a convivência com as autoridades locais do médio-oriente, mas também aqui nunca atinge o tom complexo e elaborado de Syriana (8/10), de forma a que as pretensões a um filme mais profundo e analítico sobre a acção das forças americanas não passam de mero exercício vazio (assim como a conclusão do filme – apenas uma trama improvável construída para ser resolvida no último momento, que apenas funciona devido à ignorância sobre os eventos em que o espectador é colocado).

Parte da fórmula é a hiper-estilização do filme: planos apertados sobre o rosto das personagens, cortes rápidos, cinematografia baseada em tons verde e azul escuro, inserts constantes de jipes a rodar a toda a velocidade, utilização de imagens de satelite e telemóveis, tudo sublinhado por música étnica que acaba por ser uma colagem pouco inovativa, sempre a martelar na mesma tecla – afinal, são ideias desenvolvidas por Ridley Scott em Black Hawk Down (7/10), que de certa forma criou aí a fórmula estilística base contemporânea para este tipo de filmes. A falta de ideias novas é exemplificada pelo modo como a personagem de Russel Crowe é repetitivamente filmada em acções banais e despreocupadas em casa (a tratar do filho) como contraste às acções tensas no terreno da personagem de DiCaprio, uma imagem repetida infinitas vezes.

DiCaprio e Golshifteh Farahani
Há mérito no enredo pela introdução da relação amorosa entre a personagem de DiCaprio e uma enfermeira local (a iraniana Golshifteh Farahani, numa performance captivante), especialmente pelo modo como explora e procura demonstrar as condicionantes e consequências de uma tal relação entre um estrangeiro e uma local (a melhor sequência do filme – o almoço em casa da irmã), e pela interpretação de DiCaprio, que mais uma vez dá tudo o que tem ao filme, mas que é insuficiente para que o filme seja algo de inovador ou realmente diferenciador entre os filmes do mesmo género, apenas um produto bem executado.

Uma nota final para esta notícia infeliz, que relata como a actriz Golshifteh Farahani ficou impedida de sair do país após a estreia do filme.

Blindness

Blindness (2008)
7/10
de Fernando Meirelles, baseado no livro de José Saramago

Julianne Moore
Não li o livro (ainda). E normalmente tento não criar expectativas e ver os filmes com a mínima informação sobre o que vai acontecer. É um filme díficil, não convencional, que levanta questões sobre a ambiguidade moral da natureza humana e prova como certas obras literárias têm uma complicada adaptação ao cinema. As expectativas eram altas, afinal era o primeiro filme baseado numa obra de Saramago, realizado pelo autor de Cidade de Deus (10/10) e Constant Gardner (8/10), e não sendo uma obra fora-de-série,  não é uma desilusão.

O argumento centra-se numa parábola  em que a cegueira humana em relação à condição dos outros e generalizada falta de empatia concretiza-se na cegueira física de toda uma população, uma epidemia de falta de lucidez. A abordagem à narrativa tem um tom abstracto evidente – a localização da história nunca é determinada, as personagens são números e profissões – próprio de uma analise intelectual de algum distanciamento forçado  em relação ao sujeito que se analisa (em que em qualquer tradução para filme se centra a história, são o veículo das emoções-acções).  Não há uma ligação demasiado pessoal ou um investimento real sobre a perspectiva de uma personagem  (com a excepção ligeira da personagem de Julianne Moore, que num filme de cegos funciona como um guia), mas sim todo um painel de personagens. Existe também um alheamento do quadro geral, deixando-nos às escuras sobre o que se passa no resto da sociedade,  sobre o impacto da epidemia na população fora das personagens que o filme acompanha, quebrado ocasionalmente por inserts de conferências de imprensa do governo.

Esta abordagem advém do tratamento do livro pelo argumentista canadiano Don McKellan, que em Last Night (5/10) realizou um dos mais anti-climax e não emocionais filmes de cenário fim-do-mundo (portanto a trabalhar em Blindness em território familiar - plot summary de “Last Night”: A group of very different individuals with different ideas of how to face the end come together as the world is expected to end in six hours at the turn of the century) que deixa a sua marca na abordagem distanciada do filme, por vezes demasiado indiferente no princípio, quando as personagens parecem pouco surpreendidas com o seu destino. A abordagem demora a encontrar um tom consistente, entre as situacções  de cariz ficção-científica e o comportamento totalitário do Estado e entre a natureza cruel e pessimista relativa à acção alegórica central sobre as falhas humanas. Um exemplo enigmático é a utilização de um voice-over pela personagem de Danny Glover, que surge apenas a meio do filme, volta depois a aparecer furtivamente no fim do filme e nunca é explicado.

Alice Braga
Grande parte do enredo desenrola-se no hospital/prisão/ hospício para onde os cegos são enviados e é aqui que o filme atinge alguns dos melhores momentos, na medida em que é efectivamente construído um ambiente desolador e a esperança escasseia, em que as personagens se tornam caricaturas de humanos pelos exageros expostos – falta de higiene, abandono de qualquer decência social – uma descida ao abismo. Meirelles mostra a sujidão e falta de orientação dominantes, mas durante todo o filme hiper-estiliza a acção com quase momentos videoclip Mtv com cortes abruptos, sobre-exposição de elementos, truques visuais que parecem deslocados, forçando a ideia de luminosidade exagerada como paralelo à falta de visão com uma cinematografia de cores esbatidas e saturada de brancos. Meirelles opta por filmar as caras demasiado perto, com movimentos lentos arrastando-se ao acaso que mais parecem distrair (especialmente considerando a escolha em relação ao usual) do que atrair a atenção do espectador.

Ainda assim, durante todo o tempo no hospital em que tudo parece resvalar para o pior, é quando o distanciamento em relação às personagens se torna mais claro, e o tom estéril da abordagem mais parece contrastar com o desenrolar da acção – as personagens parecem cair num mundo próprio, pouco ligadas ao que as envolve e a ligação com o espectador permanece fria  – apesar de todo o sofrimento visivel, o filme com a sua abordagem estilizada nega os próprios efeitos do ambiente e nunca realmente explora uma verdadeira experiência humana, preferindo explorar o lado da experiência social, onde  as personagens ficam reduzidas à ideia de ratos abandonados num laboratório, cujo comportamento não parece espontâneo mas dirigido. Atente-se um dos momentos centrais: quando o gang ditador exige que as mulheres se entreguem em troca de alimentos o único sentimento é de resignação ao destino, nunca se considerando realmente qualquer alternativa de resistência (nem sequer mais uns dias de fome: todos reduzidos a animais) - o objectivo é mostrar o sacrifício das mulheres e acentuar a a invalidez dos homens.

just a rat in a cage
Apenas quando as personagens saem do hospital para a rua vemos algumas emoções que parecem genuínas e que mostram a fraqueza do estado emocional das personagens. Confrontados com o caos generalizado agarram-se uns aos outros (o pouco que ainda conhecem) numa tentativa de manter algum contacto humano para sobreviver. Há o aproximar do casal central cuja relação parecia condenada e é claro, há o cão das lágrimas, numa cena que funciona como uma conclusão necessária, ou um despertar emocional da paralisia anterior.

De qualquer modo o filme é relevante na medida em que tenta uma análise complexa através de uma parábola inteligente e tenta recriar um cenário caótico de desolação e apocalíptico, com a quebra completa da sociedade e o abandono dos cidadãos pelo seu governo; a personagem de Alice Braga e a forma como aparece entre a separação física e emocional do casal de Julianne Moore e Mark Ruffalo, incapazes de sentir a experiência da mesma forma. A forma como a personagem de Moore se torna um guia, uma âncora para os que se agarram a ela, enquanto ao mesmo tempo Ruffalo passa de médico a incapacitado, ou o confronto entre as personagens habituadas a serem abusadas e as personagens privilegiadas antes da epidemia, numa mudança de dinâmica e poder social. Mas nunca se torna numa obra fracturante, capaz de cativar o espectador para o tal abismo.

outubro 12, 2008

The Savages

The Savages (2007)
de Tamara Jenkins
7/10


The Savages é um drama com tons de comédia negra sobre mais uma família disfuncional americana no seu micro-cosmos com observações sarcásticas e diálogo semi-crítico sobre os comportamentos egocêntricos de 2 irmãos no seu desapontamento de meia-idade (os excelentes Laura Linney e Philip Seymour Hoffman) que têm de lidar talvez de uma forma inesperada com a questão da mortalidade e declínio inerente ao envelhecimento quando o seu pai se torna incapaz.

É um tipo de filme semelhante a Garden State ou Margot at the Wedding, baixo-orçamento e crítico simplesmente pela observação do quotidiano urbano americano (ou de personagens urbanas fora do seu ambiente) que se tem tornado um motivo recentemente utilizado pelo cinema americano mais alternativo, mas possui argumentos próprios para se tornar cativante sem se deixar envolver demasiado na forma que utiliza, isto é sem nunca se tornar demasiado inteligente para se deixar envolver emocionalmente - no entanto nunca sentimentaliza demasiado o drama, pois existe sempre um distanciamento intelectual por parte das personagens em relação ao que se passa.

Não depende tanto de setups visuais como o fato de treino de Ben Stiler em The Royal Tenenbaums ou a decrépita carrinha amarela em Little Miss Sunshine, mas também existem aqui: o ridiculo tratamento para o torcicolo de Hoffman, as casas dos subúrbios de Arizona; não são propriamente apenas gags visuais mas pequenos detalhes que acrescem dimensões às personagens dos dois irmãos, como o afecto da irmã à sua planta e gato (necessidade de sentir algum envolvimento emocional), a casa desarrumada por livros do irmão (habituado a viver desligado na sua confusão), etc.

Existe um humor definitivamente cáustico como evidente nas cenas iniciais que acontecem em Sun City Arizona, uma colonia de casas no meio do deserto rodeada por campos de golfe e palmeiras, dominada por reformados esforçados em manter boas aparências, num típico exemplar excesso americano, o cenário falso onde os dois irmão parecem aterrar vindos de outro mundo. Estas cenas iniciais marcam o ritmo para o resto do filme e estabelecem rapidamente a relação entre os dois irmãos – ele, aborrecido com o que se passa porque interrompe a sua vida profissional-afectiva tenta agir de uma forma mais prática, resignado com o que aconteceu e preocupado apenas em resolver rapidamente a situação sem ser muito perturbado por isso, que estabelece que tem uma visão mais pessissimista e menos romanceada da questão vida/morte, uma inevitabilidade que tem que ser tratada sem perder muito tempo com isso (“all this wellness propaganda and the landscaping, it's just there to obscure the miserable fact that people die! And death is gaseous and gruesome and it's filled with shit and piss and rotten stink!”); ela, como que acordada de um sono longo na sua apatia, atingida pelo que vê em primeira mão, abalada pela ideia de mortalidade que põe tudo em perspectiva, com alguma esperança em não abandonar o pai, em sentir algo ainda.

Ao longo do filme a relação entre os dois além deste contraste é pontuada por um ar intelectual, duas pessoas submersas em mundos literários, com pretensões analíticas profundas sobre a vida em geral, que na realidade mostram uma vida afectiva pouco saúdavel: ambos incapazes de manter uma relação saúdavel ou assumir compromissos, porventura um reflexo da influência que a sua infância miserável e abandono parental causaram e que perdura ainda até ao fim do filme. O papel da auto-medicação de painkillers e anti-depressivos no filme sublinha o desajustamento das personagens.


Formalmente o filme funciona com composições de pequenos quadros que focam as personagens nos seus ambientes e a forma como estes mostram algo das suas personalidades. Por exemplo, o irmão fechado no seu escritório a tentar escrever ou a tentar a esquecer o sentimento de voltar atràs a um tempo em que vivia com a irmã e tudo o que faria para se afastar ainda estava longe, enquanto a irmã recebe na rua uma visita da pessoa que talvez melhor conhece, um homem casado envolvido num caso adúltero, um circulo de relações falhadas/duvidosas.

Tamara Jenkins no KCRW’s “The Treatment” fala de como se inspirou em dramas do dia-a-dia com um toque de comédia realista, coisas absurdas que acontecem que quase pedem que se pense em humor para as suportar, típicas do cinema da europa de leste anos 70 (Milos Forman, Polanksi) – apesar de não estar muito familiarizado com essa cinematografia, recentemente podemos ver corrente semelhante por parte do cinema romeno: A Este de Bucareste, A Morte do sr. Lazarescu - drama decido a ser realista enquanto acompanha o desesperante sistema de saúde romeno, que resulta que a partir de situações caricatas e pouco razoáveis o espectador se refugie numa análise do ponto de vista do humor negro para poder compreender o drama, para identificar-se com o que acontece e como as personagens o aceitam.

Finalmente, apesar de toda a degradação senil que o pai sofre devido à sua condição, é a ele que pertence a melhor cena do filme: os dois irmãos discutem mais uma vez e ele, incomodado, desliga o som do aparelho auditivo, ficando sozinho, isolado.

Batman Begins (As politicas de)

Batman Begins (2005) de Christopher Nolan - 7/10

Batman Begins é um filme surpreendentemente liberal na acepção americana da palavra (ideologicamente de esquerda) nas suas políticas: não só Batman não é visto apenas como um vigilante que toma a justiça nas suas proprias mãos (uma ideia politicamente de direita, de substituição das instituições do Estado), já que a sua acção é justificada por um sistema completamente corrupto e tendencioso para a impunidade dos criminosos (e que o filme luta por expor), há toda uma necessidade em demonstrar as raízes socias da sua acção e a cooperação com os elementos certos da sociadade.

É evidente a necessidade do filme em demarcar-se da temática dos filmes anteriores – excentricidades artísticas carregadas de simbolismo e experimentalismo visual, centrados nas bizarras personagens sem grande desenvolvimento pessoal (style over story), resultado da influência de Tim Burton – focando o aspecto emocional e social da história.

Existe uma forte mensagem de condenação de vigilantes ou carrascos auto-nomeados evidente pelo forte confronto entre a posição de Bruce Wayne (pré-Batman) e a Liga das Trevas (encarnada na personagem de Liam Neeson), uma vez que estes últimos defendem uma acção segundo a sua justiça como resposta à decadência do sistema judicial-político, quase numa lógica terrorista de destruição - afinal é a diferença de soluções para o tratamento da situação actual de degradação de Gotham que leva ao confronto físico entre os dois e representa o arco principal do filme.


Por várias vezes os pais de Bruce Wayne são referenciados como tendo tido intervenções politicas no combate à pobreza através do papel da sua empresa para minorar a desigualdade, uma atitude quase proibitivamente socialista no cenário americano, sublinhado por uma compreensão em relação ao desespero da pobreza que pode levar à criminalidade, expresso quer pelo pai de Bruce quando é assaltado quer pela personagem de Katie Holmes, uma advogada honesta (representante do ideal de combater o sistema por dentro) confrontada com o poder corrupto que mesmo assim argumenta que é o sistema actual e o crime organizado que perpetuam/condenam certas pessoas à criminalidade numa espécie de ciclo viciado, que por fim leva Bruce a sobrepor a justiça dos fracos que não se podem defender em relação ao seu próprio sentimento de vingança, uma toda evolução ideológica desde o momento em vive apenas para a vingança sobre o criminoso que assassinou os seus pais até ao exílio que o leva a viver como criminoso e a roubar para não passar fome. Isto resulta na confrontação quer com o sistema existente quer com o grupo de vigilantes que condena todos por igual (que afirma o desprezo pelos inocentes, pois são todos culpados).

Toda esta moralização das acções do filme é acompanhada por uma forte componente anti-apatia (o repetido “You are what you do, not what you are inside” – as tuas acções são o que te define), evidente também na sua condenação da classe alta de Gotham pela sua apatia e indiferença para com a situação actual, sendo o combate a essa indiferença parte fulcral das suas motivações.

É pois uma versão renovada do extravagante solitário, e se é certo que mesmo assim é uma visão simplista ou demasiado generalizada das lutas de uma sociedade, condiz com as origens de banda-desenhada de Batman. O título “Batman Begins” pode desta forma aplicar-se não só às origens de Batman, mas também a um novo rumo na franchise.