janeiro 31, 2010

The Limits of Control, La Mujer Sin Cabeza

Cinema delinquente

São dois filmes que pertencem a um cinema diferente: a sua principal característica é uma escolha-declaração estilística de explorar os limites das convenções generalizadas no cinema, em perder a cabeça na descontextualização de todas as acções. Contra a corrente, não oferecem leituras imediatas, logo vivem e incitam o pensamento livre, uma análise demorada e a procura de simbolismos e analogias, libertando o espaço ocupado por explicações feitas para o espectador através de um ritmo mais pausado. Logo implicam uma observação muito mais subjectiva, mais dependente de uma interpretação visual do significado dos símbolos aludidos. Não têm portanto um impacto imediato, mas antes duradouro, que perdura tal como a acção nos próprios filmes, o que também implica que existam numa linha difícil entre o pretensiosismo e algo relevante, com a demasiada estilização da encenação e uma difícil leitura a exigir um envolvimento do espectador que pode não ter correspondência.


“The Limites of Control” é um filme estruturado através de várias repetições, quer visuais, quer narrativas, quer nos diálogos. Todos os planos são resultado de um estudo prévio sem espaço para a improvisação. É muito auto-referencial na medida em que não faltam contactos com outras obras de arte e de certa forma desconstrói conceitos de filmes de espionagem ou intriga em que a fútil linha narrativa se poderia inserir. Existe uma nostalgia por uma época menos óbvia, por outros ritmos, uma altura em que os fósforos ainda faziam sentido, em que como diz a personagem de Tilda Swinton havia momentos nos filmes em que nada acontece e vem à memória a sequência inicial de “Dead Man” do próprio Jarmusch. Se conceptualmente é um filme fora do espaço dos outros filmes contemporâneos, protesta também contra um pensamento único, contra o entretenimento fácil que domina a sociedade actual, com um inspirado uso de quadros e peças de música que obrigam a outro tipo de reflexões, pela celebração de diferentes línguas e culturas: a única vez que a personagem principal se parece emocionar é durante uma uma canção flamenca.

É também contra uma certa uniformização ou subjugação a uma entidade que o personagem principal parece lutar, deambulando até ao final. Se é uma história sobre um agente solitário contra o uniformismo e pensamento único, estilisticamente também teria que ser contra essa uniformização pois não é um filme como tantos outros, mas até nisso existe uma lógica perversa: não é o filme que é assim por causa da história, mas a história que é assim por causa do filme, de modo a preencher os objectivos do filme.  La vida no vale nada e dois espressos, porque fazer como todos os outros não tem tanta piada.


Se “The Limites of Control” mostra-nos alguém que estando na margem da sociedade parece incumbido de uma missão para eliminar um certo imperialismo artístico, em “La Mujer Sin Cabeza” existe quase um horror na profundeza da imersão na normalidade burguesa em que a personagem principal se enterra. Aqui a encenação não passa por uma estilização estruturada (é mais livre) mas pelo magistral enquadramento  constante da acção pela camâra, a tal improvisação artificial, sempre consciente da visão que tenta partilhar, sem deixar espaço para respirar: obcecada permanentemente na personagem principal, coloca a mulher no centro ou nas margens sem deixar espaço para mais nada, chegando até a obstruir ou ofuscar o que acontece fora dos limites da nossa personagem principal, reflexo da sua abstracção em relação a tudo que se passa em seu redor, exemplificado pela sua indiferença para com os empregados indígenas ou na relação com a sua família. Como na sequência de abertura do filme, do atropelamento: quase sem cortes,  não abandonamos a imagem daquela mulher por um segundo para saber o que aconteceu - apenas interessa o estado daquela cabeça. Se nos outros filmes de Lucrecia Martel havia pelo menos uma linha narrativa de suporte, ou uma descoberta de novos cenários, aqui não há mais nada do que é enquadrado: tudo o resto fica esquecido, numa corajosa escolha.

A mulher sem cabeça é a mulher sem sentimentos, que deambula num estado letárgico, como que a sonhar acordada: engana o marido numa noite e é lhe indiferente o que aconteceu; pensa ter atropelado alguém na estrada mas é lhe indiferente as consequências: a única vez que chora no filme não é por tristeza ou por outro sentimento nobre, apenas porque não sente nada, vive em piloto automático. Mais que uma crítica, uma constatação da apatia vazia da personagem e da sua vertigem sonâmbula, como que presa na direcção de Martel, sem possibilidade de fuga, de futuro. Uma viagem sem retorno a um estado de abstracção emocional, através de uma abstracção formal.

The Limits of Control de Jim Jarmush, EUA  2009, 7/10
La Mujer Sin Cabeza de Lucrecia Martel , Argentina 2008, 8/10

janeiro 20, 2010

Shortlist Oscar Melhor Filme Estrangeiro 2010

Já são conhecidos os 9 filmes a partir dos quais sairão as 5 nomeações para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro:

Samson & Delilah (Australia)
Svetat e golyam i spasenie debne otvsyakade / The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner (Bulgaria)
Un prophète (França)
Das Weisse Band (Alemanha)
Ajami (Israel)
Kelin (Cazaquistão)
Oorlogswinter - Winter in Wartime (Holanda)

Como era de esperar o filme nomeado por Portugal, Amor de Perdição, não foi escolhido e de resto não existem grandes surpresas: Los Abrazos Rotos de Almodovar não tinha sido nomeado por Espanha e apenas as omissões de "Police, Adjectiv" (Roménia) de Corneliu Porumboiu, (realizador de A Este de Bucareste) ou de "Baarìa" de Giuseppe Tornatore poderão causar alguma estranheza. Das Weisse Band e Un Prophète parecem estar na frente da corrida e terem a sua nomeação segura, seguidos de El secreto de sus ojos e Ajami. A nomeação de La Teta Assustada poderá ser a surpresa para a selecção final. O site incontention.com tem um excelente artigo em que analisa alguns dos filmes nomeados e as nomeações de anos anteriores.

janeiro 13, 2010

Top10 2009: Cahiers du Cinéma


top10 de 2009, escolhido pelos críticos dos Cahiers du Cinéma:

10. Hadewijch - Bruno Dumont
9. Tokyo Sonata - Kiyoshi Kurosawa
8. Le Roi de l’évasion - Alain Guiraudie
7. The Hurt Locker , Kathryn Bigelow
6. Tetro - de Francis Ford Coppola
5. Singularidades de uma rapariga loura - Manoel de Oliveira
4. Gran Torino - Clint Eastwood
3. Inglourious Basterds - Quentin Tarantino
2. Vincere - Marco Bellocchio
1. Les Herbes folles - Alain Resnais

e já agora, os melhores da década para os cadernos:

10. Ten, Abbas Kiarostami
9. The New World, Terrence Malick
8. War of the Worlds, Steven Spielberg
6. La Graine et le mulet, Abdellatif Kechiche
5. A History of Violence, David Cronenberg
4. Gwoemul / The Host, Bong Joon-ho
3. Sud pralad /Tropical Malady, Apichatpong Weerasethakul
2. Elephant, Gus Van Sant
1. Mulholland Drive, David Lynch

um piscar de olhos irreverente ao blockbuster mainstream americano (mas um com um toque de autor), ao mesmo tempo que elege como melhor filme da década um filme que se desenrola nas colinas escondidas de Los Angeles, sobre os segredos e sonhos perdidos de Hollywood.

Duas descobertas (e é para isso que estas listas existem): Sud pralad / Tropical Malady ("A masterpiece of sensory cinema", "Psychedelic and haunting", "A movie to regain hope in human race") e Tie Xi Qu: West of the Tracks ("Truly unique film experience", "a ten hour film if you watch the three parts as a whole").

janeiro 03, 2010

Top10 2009: Slant

o top10 dos filmes de 2009, pelos críticos do site Slant

10. The Hurt Locker - Kathryn Bigelow
9. The Sun - Aleksandr Sokurov
8. Tetro - Francis Ford Coppola
7. Inglourious Basterds - Quentin Tarantino
6. La Mujer Sin Cabeza - Lucretia Martel
5. A Serious Man - Ethan Coen & Joel Coen
4. Revanche - Götz Spielmann
3. Julia - Erick Zonca
2. Two Lovers - James Gray
1. 35 Shots of Rum - Claire Denis

janeiro 02, 2010

Top10 2009: Público

o top10 dos filmes de 2009, pelos críticos do jornal Público:

10. Ex-aequo:
Two Lovers - James Gray
Public Enemies - Michael Mann
Afterschool - Antonio Campos
9. Star Trek - J. J. Abrams
8. The Limits of Control - Jim Jarmusch
7. Ex-aequo:
The Hurt Locker - Kathryn Bigelow
Un prophète - Jacques Audiard
5. La mujer sin cabeza - Lucrecia Martel
4. Inglourious Basterds - Quentin Tarantino
3. Ne Change Rien - Pedro Costa
2. Gran Torino - Clint Eastwood
1. Milk - Gus Van Sant

algumas desilusões nas escolhas do Público, como a não menção a The Wrestler ou Che. É evidente a contínua admiração por filmes sem uma narrativa estruturada, por um cinema livre de argumento que se dedica à encenação acima de tudo (Jarmush, Mann, Martel), e continua a admiração por James Gray (Two Lovers, depois de We Own the Night).

dezembro 30, 2009

dezembro 22, 2009

Hiroshima, mon amour

Hiroshima, mon amour - 10/10, de Alan Resnais, 1959

"Hiroshima, mon amour" é considerado um dos três filmes que estão na génese da Nouvelle Vague francesa, juntamente com "À Bout de Souffle" de Godard e "Les 400 Coups" de Truffaut. O seu contibuto original, para além da introdução de flashbacks abruptos e memórias recordadas através de recriações utilizadas de forma não linear (a procura de mimesis será um tema recorrente), é definitivamente pelo lado temático. A abordagem filosófica de tom existencialista domina as acções do filme, atormentadas por uma revisão do passado em confronto com o futuro (“Como eu já fui jovem!” grita a personagem feminina). É também uma evocação de um encontro romântico e melancólico entre uma parisiense de visita a Hiroshima para rodar um filme e um arquitecto japonês, ambos com cicatrizes emocionais da guerra na sua superfície humana.

Originalmente pensado para ser um documentário sobre os acontecimentos e sequelas em Hiroshima, ao modo de Nuit et Bruillard (1955, sobre os campos de concentração nazis), Resnais parece ter abandonado a perspectiva de uma reconstituição fiel e capaz de demonstrar o estupor causado por tais eventos. Ficamos apenas com as sequelas (no início com imagens dos sobreviventes), representadas pelas duas personagens do filme, que vivem assombradas pela ideia de escapar ao passado e pela forma como procuram encarar o futuro. Resnais adopta aqui uma ideia da impossibilidade de atingir algo perto do realismo ou cópia/recriação e afunda-se nas memórias e implicações a nível humano da tragédia da guerra, escolhendo acompanhar um dia na vida destas personagens, o dia em que se conhecem e eventualmente se abandonam.

Ele é Hiroshima, Ela é Nevers em França. Tudo isto é explicado ao longo do filme, em que assistimos ao confronto entre duas perspectivas filosóficas opostas, que são desenvolvidas e ilustradas com as acções e sobretudo palavras das duas personagens principais, num argumento de Marguerite Duras cheio de referências subtis mas devastadoras para as consequências emocionais das personagens. O que está em jogo é a examinação dos pólos antagónicos criados por Kierkegaard em Fear and Trembling: ambos aceitam a sua mortalidade, o temporal finito, mas de forma diferente: Ela é um item de resignação (ou Knight of Resignation no original) e Ele é um item de fé (ou Knight of Faith).

Ela (por Emmanuelle Riva) vive presa ao seu passado, vítima da sua tragédia pessoal causada pela guerra. Numa França ocupada pelos nazis apaixonou-se por um soldado alemão, o seu primeiro amor, que foi depois morto e não consegue imaginar felicidade depois dessa perda, não consegue ver mais nada além. Ela perdeu toda a esperança, abalada pela ideia que tudo é efémero, tudo tem o seu fim eventual, que tudo desaparecerá com a passagem do tempo. Isto leva a que se agarre à memória de felicidade anterior, memória que tenta honrar por não se esquecer, já que tudo apenas perdura enquanto existir na memória de alguém e morrerá quando for esquecido. Esta obsessão com o seu amor alemão que ela luta por não se esquecer (e por consequência, não se entregar definitivamente ao japonês) está patente em várias interacções com o seu antagonista no filme, chegando inclusive a suspirar por uma vida com ele que lhe permita abandonar a resignação (ou seja, está consciente que existe uma alternativa). Eventualmente ela sucumbe e fecha-se, incapaz de se deixar salvar. Ela não pode abandonar a memória do alemão, porque isso seria a prova definitiva que tudo é efémero, sem significado eterno, e ao prosseguir uma relação com o japonês esse primeiro amor estaria vazio de sentido. Essa primeira relação estaria perdida porque deixaria de viver na memória de alguém, e se ela se permitisse o abandono de tal memória isso era o que certamente iria acontecer à sua relação com o japonês, condenada logo à partida condenada a extinguir-se no tempo, desprovida de significado no futuro, e substituída consequentemente por outra relação com alguém no futuro e assim por diante. Para ela tudo apenas existe na nossa memória, e tudo o que é garantido é a evaporação de qualquer amor ou felicidade. Tudo eventualmente deixará de existir, toda a vida se extinguirá, tudo o tempo eliminará reduzido a cinzas, tal como ela e as suas memórias. A única forma dela poder escapar a isto é assumir que o seu estado de resignação não tinha razão e que toda a sua vida até aí foi um erro e é algo que a tenta, que ela combate todo o filme. Mas acaba por escolher sacrificar a sua vida temporal finita, para resguardar a memória da relação com o alemão, prefere sacrificar o presente e o futuro de modo a guardar a eternidade dessa memória (pelo menos enquanto ela viver), como prova de amor, resignada a que não encontrará igual, ou que pelo menos, teria que abandonar o seu primeiro amor.

Ele (por Eiji Okada) é um item de fé, na medida em que da tragédia renasce reforçado com sentido optimista, que acredita no futuro e na vida. Não é abalado pelo sentimento de negação temporal que atinge tudo, que torna tudo trivial porque eventualmente desaparecerá com a passagem do tempo – vive no presente, para o futuro. Raramente fala em detalhe de Hiroshima, do que aconteceu e de tudo que perdeu – apenas aconteceu, ficou para trás, mas é algo que está presente em todas as suas acções apesar de não ser discutido – ao contrário da francesa que examina pormenorizadamente os detalhes da sua tragédia. Como item de fé, por toda a perda que viveu, está mais consciente do que nunca do finito temporal, da sua mortalidade, e escolhe aproveitar a única oportunidade que tem de melhorar as coisas, de fazer a diferença, de procurar a felicidade, carpe diem. De facto, tudo o que a sua personagem é resulta do mundo que lhe foi destruído, e encara o desastre de modo a esquecê-lo, pela maneira como nunca fala em detalhe sobre o que aconteceu, mas encara o desastre também de modo a lembrar-se constantemente, pela forma como influência todas as suas acções, como define toda a sua personalidade.

É por tudo isto que Ela é Nevers e Ele é Hiroshima, numa alusão subtil ao simbolismo do filme. Nevers é um local frio, abandonado, congelado no passado, sem grande esperança para o futuro excepto vagas reminiscências sobre uma eventual prosperidade longínqua, mas no fundo incapaz de escapar do presente. Ele é Hiroshima, que tal como é retratado no filme é uma cidade em crescimento renovante, vibrante de esperança depois da tragédia, optimista num futuro melhor e possível. Dentro do simbolismo do filme é também importante notar que ela é uma actriz, dedicada a reviver e recriar o passado e ele é um arquitecto, consciente do seu papel na construção de uma nova Hiroshima, e é também um político, empenhado na construção de uma nova sociedade. Dentro deste jogo de referências o hotel onde ela fica hospedada é o “New Hiroshima” (o sinal de renovação) e o bar onde se encontram é “Casablanca” (referência a outro amor impossível, e a “We’ll always have Paris"). Aliás, neste notável jogo de referências as primeiras imagens são um espelho do que virá a seguir: dois corpos que se parecem diluir num só, planos fechados sobre mãos que percorrem a pele do outro, corpos que surgem cobertos de cinzas no primeiro plano do filme - o sofrimento de Hiroshima - cinzas que depois dão lugar a chuva renovadora - a nova Hiroshima - para finalmente se transformarem em gotas de suor fruto do calor da paixão - o calor de Hiroshima. Esta imagem de dois corpos que tanto não se querem separar, não se querem esquecer que parecem querer perder-se um no outro é o reflexo da dinâmica que vai pontuar a relação dos dois durante o filme, num combate entre o passado e o futuro, entre a resignação e a fé.

Logo no início do filme ela proclama a sua tristeza com o que aconteceu em Hiroshima, afirmando que sentiu toda a perda do que aconteceu – ao que ele contrapõe que ela não viu nada, não viveu nada de Hiroshima, que não conhece realmente essa perda, chegando ao ponto (mais tarde no filme) de lhe lembrar que estava um dia de sol em Paris quando aconteceu o ataque. É também o facto dele não acreditar que ela conheceu perda como Hiroshima que o leva a inquirir sobre o passado dela, até chegar a Nevers, até chegar à tragédia dela. Depois de ela aludir ao facto que nunca mais se vão ver depois do primeiro encontro, ele segue-a até às filmagens onde observam uma manifestação pela paz (“No more Hiroshima”) e acabam a noite num bar onde  depois de muita insistência wlw consegue finalmente que ela fale sobre o que lhe aconteceu em Nevers. Numa cena longuíssima (interrompida pela introdução de flashbacks) que ocupa a parte central do filme ela mergulha na sua perda, na cave onde se escondeu depois da morte do alemão, onde acaba por esfarrapar as mãos na parede até ver o seu sangue. No diálogo (ou monólogo) com o japonês ela revive o seu processo de luto, algo essencial para atingir um estado de resignação, chegando a alienar-se da presença do japonês à medida que revive mais uma vez a sua memória da relação com o alemão – abraçando o japonês declara “como é bom ter alguém”, mas pensa apenas no alemão. Ele no início não acredita que ela tenha conhecido a perda de Hiroshima, pelo menos até ele chegar a Nevers através dela, e de certa forma viver o que ela sentiu através da recriação dela dos acontecimentos em Nevers. Ela fala sobre estar em Hiroshima e ele responde que ela não esteve lá, que não viu nada – ela fala sobre Hiroshima mas na realidade está a pensar na sua própria tragédia e é apenas após a cena central do diálogo no bar que ele a percebe completamente. É nessa altura, após a confissão dela que ele sente maior desejo em salva-la da sua resignação, em puxa-la para a sua fé. A sua solução é propor-lhe um novo começo, que ela deixe tudo para trás, ou seja, que conheça realmente Hiroshima como ele. É após esse momento de confidência dela, em que ele partilha da sua dor pela primeira vez, que paradoxalmente estão mais perto e mais longe um do outro – o plano existencial de cada um completamente definido, sem mais ambiguidades.

A evocação que ela faz do que lhe aconteceu em Nevers é reveladora em vários sentidos. É uma revisitação dela ao seu passado que ela já não estava habituada a fazer, algo que ela já tinha deixado para trás na cave do seu luto em Nevers, de onde saiu apenas quando estava preparada para esconder a sua dor. Mas em vez de lhe permitir ganhar alguma distância emocional em relação ao que lhe aconteceu, ela acaba por se perder numa ideia romantizada do que aconteceu, do que sacrificou nessa cave, da saudade do ardor desse primeiro amor impossível. Ela confessa-se ao japonês mas quase não está consciente da sua presença, tal é o seu envolvimento com a recriação que faz (que é orquestrado soberbamente por Resnais com a introdução de breves flashbacks com a voz dela a narrar por cima a ilustrar as suas memórias intrusivas), mas no fim considera definitivamente a tentação e as implicações de ficar com o japônes. É uma das cenas seguintes que ajuda a compreender as suas dúvidas e eventualmente a sua decisão – no quarto de hotel, olhando-se ao espelho, num monólogo interior, constata devastada: “Ainda não estás exactamente morto, eu contei a nossa história. Enganei-te nesta noite com este desconhecido" e depois “Olha como me esqueço de ti”. Não é pois de estranhar que a cena principal da sequência final se desenrole sem troca de palavras entre os dois cúmplices, sentados lado a lado até ela desaparecer. Afinal, estava tudo dito: Ela é Nevers, Ele é Hiroshima.

* para uma análise mais detalhada das influências filosóficas sobre o filme, consultar as webcasts da Universidade de Berkeley - Existentialism in Literature and Film 

novembro 13, 2009

Moon

Moon - 8/10
de Duncan Jones, 2009


Algures num futuro não muito distante a humanidade resolveu os seus problemas energéticos extraíndo hélio-3 do solo lunar. Um astronauta solitário encarregue de toda a operação está a duas semanas do fim do seu turno de 3 anos, mas o isolamento completo do lado escuro da lua começa a ameaçar a sua sanidade.

A estreia de Duncan Jones é um alusão à ficção científica inteligente de Primer como se supervisionada por Darren Aronofsky, sublinhada por música de Clint Mansell, com fragmentos de Solaris e preocupações existenciais de 2001 - A Space Odyssey, numa fusão que atinge a originalidade num retrato intimista e mantem um elevado nível de interesse, especialmente na tour de force da interpretação de Sam Rockwell assombrada por composições etéreas e imagens fantasmagóricas da superfície lunar.