fevereiro 25, 2011

Inside Job


Inside Job de Charles Ferguson, EUA 2010, 9/10
nomeado para Oscar Melhor Documentário

Charles Ferguson já tinha desmascarado as operações da Casa Branca no Iraque em "No End in Sight" e volta a fazê-lo, agora sobre a crise financeira de 2008, de modo igualmente esclarecedor e acusatório, em "Inside Job". Aliás, de um modo tão informativo e conciso que podemos considerar "Inside Job" como análogo a outro documentário marco do género infomentário, "An Inconvenient Truth". Ao contrário do filme de Al Gore que tem apenas um orador, em "Inside Job" Ferguson apoia-se em depoimentos de vários peritos conceituados e envolvidos no tema, e a pluralidade de opiniões ajudam a formar o quadro completo do que se passou. Se é demasiado convencional dentro do género em que se insere, utilizando as típicas entrevistas, gráficos informativos e uma narração (Matt Damon) para ligar todas as peças, neste caso para conduzir o filme através de uma linha narrativa construída, isso só joga a seu favor dada a complexidade e abstracção do assunto abordado. A simplicidade com que consegue desarmar um tema complexo e enunciar as várias fases do problema numa estrutura cronológica acaba por ser um dos atributos do filme.

"Inside Job" revela-se o título perfeito para tudo o que aconteceu, e para o objectivo que o filme pretende demonstrar. Além de uma perfeita lição sobre o funcionamento e origem da crise, assistimos também a uma completa e incriminatória exposição de factos incontestados, que passa por mostrar como: uma política continua de desregulamentação e liberalização do sistema financeiro, a escolha de elementos ligados a bancos de investimento para lugares importantes no definir das políticas económicas da Casa Branca, a criação de produtos financeiros cada vez mais arriscados e artificiais, e o conluio entre bancos, empresas seguradoras e agências de rating, tudo em conjunto, contribuiu para o desmoronamento de um modelo. Inside Job tem outro trunfo escondido que realmente o eleva a algo de extraordinário, que passa então pelo título do filme e pela conclusão para o que o filme caminha em toda a sua narrativa. Na parte final, vários peritos são desmascarados como beneficiários directos das políticas e teorias que defendem, de um gravíssimo conflicto de interesses que normalmente os impediria de darem a sua opinião por perderem qualquer validade, aqui expostos pela primeira vez. O conflito de interesses não é só entre o governo, bancos e faculdades. Existe dentro do próprio filme, quando pessoas que passaram o filme todo a defender um ponto de vista são desmascaradas como ganhando quantidades obscenas de dinheiro a defenderem esse ponto de vista como consultadores para agentes financeiros, e esse desmascarar é notável, é o golpe de graça do filme. É um dos grandes males da economia actual: o facto de os definidores de políticas beneficiarem das teorias que apregoam, que lhes enchem os bolsos à medida que se vão provando nefastas para o resto da população, com resultados práticos bastante evidentes. O mais alarmante e a conclusão final do filme é que nada mudou, caminha-se ainda na mesma direcção, e a imunidade e conluio entre políticos, banqueiros e opinion-makers continua, preparando o próximo ataque.


fevereiro 24, 2011

Gasland


Gasland de Josh Fox, EUA 2010, 7/10
nomeado para Oscar Melhor Documentário

Ver que perante a proximidade da chama de um isqueiro a água que escorre da torneira de uma cozinha entra em combustão, ou animais a perderem pêlo e peso como se tivessem sido expostos a radiação quando apenas beberam água de um riacho nem é a coisa mais impressionante no filme. O documentário, realizado e produzido de forma quase artesanal com poucos meios tem um trunfo a seu favor, já que o realizador é alguém que foi directamente afectado pelo tema que aborda "Gasland". Após ter recebido uma proposta de uma companhia de energia para explorar os direitos minerais da sua propriedade, Josh Fox decide investigar o real propósito e possíveis consequências que aquela oferta envolve. Em pouco tempo descobre casos semelhantes ao seu, em que a aceitação da oferta teve resultados desastrosos: a contaminação das reservas de água que acontecem a partir da exploração de reservas de gás natural, através de um processo denominado "fracking". Basicamente, o tipo de perfuração utilizado para chegar ao gás acaba por fracturar o subterrâneo, quebrando as barreiras de separação entre as reservas de água e as reservas de gás. Depois, usando uma quantidade enorme de químicos tóxicos para extrair o gás para a superfície, estes químicos acabam por contagiar a água. Esta contaminação da água e do subsolo, não é anunciada nem prevenida pelas empresas que extraem o gás, e pior, acaba por pôr em perigo a saúde das pessoas que habitam essas áreas ou vivem da água, agricultura ou animais subjacentes a esses solos. Fox, como narrador-investigador do documentário revela inúmeros casos de pessoas que adoeceram, alguns entrevistados durante o filme, e alguns casos em que as pessoas não sobreviveram. Porque o mais assustador em "Gasland" é a escala a que se joga com a saúde pública, a saúde de pessoas que no filme deixam de ser meras estatísticas para terem uma cara. É a sustentabilidade do futuro de uma sociedade que é arriscado aqui. O que é realmente assustador e exposto em Gasland é a cegueira corporativa e o conluio político apresentados, o ponto até onde se está disponível a ir na procura de lucros, a ocultação dos estragos ambientais, a compra de silêncios ou a litigação contra quem ameaçar expor o perigo real.

Em Gasland é como se assistíssemos finalmente à materialização dos perigos expostos em "Food Inc.", como se de repente fosse mais fácil ver os efeitos da poluição escondida e a contaminação dos alimentos quando se abrem aquelas torneiras cuja água é inflamável. É como ver finalmente uma representação física da ganância explorada em "Inside Job", dos incentivos aos ganhos a curto-prazo que motivam a indústria, ao mesmo tempo que se envenena, literalmente, as reservas futuras de água. É mesmo uma explosão de clarividência que é impossível não notar, abismados. Fox parte num road movie à procura de mais exemplos, mais testemunhos, que vão surgindo à medida que a exploração do gás se vai multiplicando por diferentes campos de extracção, e aparecem diferentes casos de contaminação e doença. É também uma viagem pela américa rural, américa esquecida e sacrificada. Mesmo que o formato deste documentário se revele limitado, e que falte um estudo mais esclarecido e conciso do problema envolvendo depoimentos de peritos na área como existe em "Food Inc.", apesar da repetição que se instala quando deixa de haver novo material e alguns passos em falso ao puxar por momentos emocionais, que não têm ligação com o espectador, "Gasland" é importante. É um abrir de olhos necessário a um problema que está demasiado escondido no subterrâneo da agenda jornalística e uma chamada de atenção para o perigo de combustão do modo de vida e modelo da sociedade.



fevereiro 23, 2011

Restrepo


Restrepo de Tim Hetherington Sebastian Junger, EUA 2010, 8/10
nomeado para Oscar de Melhor Documentário

A punchline que surge no final do filme não é mais do que a súmula do que vamos pensando durante o filme a partir de certo ponto: a inutilidade, a futilidade abrasiva de tudo aquilo. Menos do que uma conclusão, é  um soco retroactivo. Restrepo é uma base do exército americano no meio de um vale afegão onde decorrem as mais sangrentas batalhas no país desde a presença americana no terreno: 40 soldados americanos morreram, centenas ficaram feridos, e as vítimas entre a população local, quer sejam meros civis ou afegãos ao serviço dos taliban, são tão elevadas que não existem números oficiais. Restrepo é também o nome de um soldado americano que aparece brevemente no início do documentário, cuja morte leva os outros soldados a darem o seu nome a um posto avançado que vai ser fundamental para deter o avanço do inimigo. O posto Restrepo torna-se assim um símbolo mutável: primeiro, uma base frágil cavada à mão no topo de uma colina cuja existência inóspita e perigo constante torna-o num local de sofrimento exaustivo; mais tarde, à medida que vão melhorando as condições e que se vai aguentando como uma importante base para dificultar as operações taliban na zona torna-se num símbolo da resistência, da díficil presença contínua americana no solo. O posto acaba assim por honrar o soldado Restrepo através de uma preserverança que os soldados julgam apropriada, um motivo de orgulho, numa evolução acompanhada ao longo do filme. Mas é uma evolução também acrescida de um derrotismo crescente, de uma degradação da moral dos soldados ali colocados, visível e ainda muito actual.

O filme faz duas escolhas estilisticamente importantes. Primeiro, procura um elevado nível de objectividade e nível de assimilação junto dos sujeitos que acompanha. Focando apenas a acção com um mínimo de contexto apresentado, num enorme afunilar de perspectiva, somos atirados para o meio da acção sem saber exactamente o que se está a passar. Colocando-se ao lado dos soldados que filma, a câmara desaparece mas ganhamos acesso a tudo, através de uma passagem de interveniente activo para testemunha camuflada. Este tom distanciado é logo estabelecido violentamente no primeiro plano do filme quando ao filmar um jipe por entre as estradas montanhosas, de repente ouvimos uma explosão e assistimos ao desenlace de um ataque à coluna americana - a confusão instala-se, a câmara continua a filmar, o som desliga-se da realidade mas o sangue esbatido na câmara é real, como real é o choque. Não é normal assistirmos a soldados nervosos antes de ultrapassarem uma colina, sermos educados sob o perigo real que espreita do outro lado, e depois ver a câmara seguir em frente, para encontrar um dos soldados ferido mortalmente, e o desamparo e desorientação frágil dos seus companheiros que se segue.

A outra escolha relevante do filme é mais convencional mas que joga aqui com a anterior. Interlaçado com as filmagens efectuadas no Afeganistão durante 2008 vão surgindo excertos de entrevistas com os soldados que fizeram parte daquela campanha. O importante porém é que os depoimentos foram gravados a posteriori, ou seja, alguns meses depois de os soldados terem regressado a casa. Isto desarma de alguma forma a tensão que vivemos dentro do filme pelo modo como a acção nos é apresentada: estes soldados vão sobreviver ao que estamos a ver (com duas ressalvas: um, nem todos os soldados são entrevistados por isso a segurança de todos não está garantida; dois, pela forma como os soldados são filmados de tão perto durante as entrevistas é natural esperar que a qualquer momento um zoom out revele uma cadeira de rodas ou um braço amputado). O significativo é que esta divisão temporal não é imediata para os soldados que ouvimos. A inabilidade deles fazerem essa distinção temporal, de se alienarem do que aconteceu e separarem o presente do passado é preocupante, mostra as feridas abertas por cicatrizar. É um retrato psicológico perturbante que nos é apresentado e ilustra a opção do filme em usar o julgamento subjectivo de quem viveu em primeira mão a experiência de combate, para completar um ponto de vista objectivo na forma como as filmagens no terrreno são expostas. Restrepo esforça-se por apresentar uma tela em branco para cada um tirar as suas conclusões, sem forçar uma agenda política, deixando as questões em aberto mas proporcionando material relevante para as colocar. Cada um chegará a ilações a partir das próprias suas construções e ideologias, contudo a frase que fecha o filme é demasiado incriminatória para não provocar uma reacção.

fevereiro 22, 2011

Óscares no Ípsilon

A crítica sobre o filme do Banksy, "Exit Through the Gift Shop",  foi escolhida pelo Ípsilon como uma das vencedoras do concurso de textos sobre os filmes nomeados para os Óscares deste ano, e além de proporcionar a hipótese de assistir à cerimónia na redacção do jornal, resultou na publicação do texto no site - podem ler aqui: http://ipsilon.publico.pt/Oscares/texto.aspx?id=277940

fevereiro 18, 2011

Fantasporto 2011


http://www.fantasporto.com/
sugestões da programação:

Grande Auditório
Segunda-feira, 21 de Fevereiro
21.15h – 127 Horas - Danny Boyle - EUA - trailer
nomeado para Oscar Melhor Filme
23.15h – I Saw the Devil - Kim Jee-won - Coreia do Sul - trailer
do realizador de "A Tale of Two Sisters"

Terça-feira, 22 de Fevereiro
21.15h – The Housemaid – Im Sang-Soo – Coreia do Sul - trailer
selecção oficial Festival Cannes 2010
23.15h – A Serbian Film - Srdjan Spasojevic - Sérvia
filme censurado devido à sua violencia extrema, que desde logo um breve olhar à sinopse permite imaginar (completamente não recomendado).

Quinta-feira, 24 de Fevereiro
23.15h – Carancho - Pablo Trapero - Argentina - trailer
thriller argentino com Ricardo Darín, secção Un Certain Regard do Festival Cannes 2010

Sábado, 26 de Fevereiro
17.00h - Hahaha – Hong Sang-soo - Coreia do Sul - trailer
prémio secção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2010
23.15h – And Soon the Darkness- Marcos Efron - EUA - trailer
série b, terror entre o "Turistas" e "The Ruins", isto é, mais férias estragadas. Alta probabilidade de sustos gratuitos, decisões idiotas e momentos nojentos. 

Domingo, 27 de Fevereiro
21.15h – The Housemaid – Im Sang-Soo - Coreia do Sul

Segunda-feira, 28 de Fevereiro
23.15h – The Tempest - Julie Taymor - Inglaterra - trailer
a realizadora de "Across the Universe" e "Frida" volta a adaptar Shakespeare depois de "Titus"

Terça-feira, 1 de Março
23.15h – I Saw the Devil - Coreia do Sul

Quarta-feira, 2 de Março
17.00h - R U There – David Verbeek - Holanda - trailer
secção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2010


Sexta-feira, 4 de Março de 2011
21.15h - The Rite – Mikael Hafstrom – EUA - trailer
blockbuster americano com Anthony Hopkins, "The Exorcist" e "The Omen" reciclados, sustos garantidos e possibilidade de fortes enjoos
23.15h – Splice - Vincenzo Natali - EUA - trailer
sci-fi do realizador do "Cube". Probabilidade de chuva torrencial de momentos nojentos


Pequeno Auditório
Sexta-feira, 25 de Fevereiro
21.00h - Zombie Undead – Rhys Davies - trailer
se o seu objectivo é ver todos os filmes com zombies no título, tem aqui uma oportunidade
23.00h - La Bête Humaine – Jean Renoir

Segunda-feira, 28 de Fevereiro e Terça-feira, 1 de Março
21.00h – Sessão especial com a apresentação interactiva de Sufferrosa -  A Web Interactive Film - trailer
what happens in the movie depends entirely on the viewer’s choice. With over 110 scenes, 3 alternative endings, 20 different locations and 25 actors to choose from, Sufferrosa is one of the biggest interactive web-based movies ever made

Sábado, 5 de Março
21.00h – Le Caporal Épinglé – Jean Renoir

janeiro 21, 2011

Banksy


"Exit Through the Gift Shop" de Banksy está pré-seleccionado para o Oscar de Melhor Documentário e enquanto não é conhecida a lista final de nomeados, o filme continua a arrecadar prémios e a tornar-se uma séria ameaça na categoria. Recentemente o filme foi premiado como melhor documentário nos "Cinema Eye Honors", e Banksy, não estando presente (como não podia deixar de ser), enviou um discurso de aceitação do prémio para ser lido durante a cerimónia:

"Now’s not the time for long, rambling speeches. I’ll leave that for the director of ‘Waiting for Superman.’


I’d like to thank the Cinema Eye awards. It’s great to be recognized by people who are so obsessed with the documentary genre — in other words people who are even more socially retarded than myself.


I guess some of you may be getting a bit suspicious about me. How can you know that this award is real? But I’d like to categorically assure you that this evening’s awards are not being staged by actors for a parody I’m making about film awards.


I’d like to thank anyone who worked on the movie. Almost all of them did a great job. And I’d like to dedicate this award to anyone out there who’s ever looked at the state of this world and thought: “I can’t just stand idly by and watch this happen. I need to get it on tape.” Thank you and have a good evening."


* crítica a Exit Through the Gift Shop

Oscar 2011: Filme Estrangeiro


Já foi revelada a shortlist dos 9 filmes que serão reduzidos na próxima semana a 5 nomeados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, uma das poucas categorias que invariavelmente tem interesse. Os 9:

Life, above all - África do Sul - trailer
Hors la Loi - Argélia - trailer
Incendies - Canadá - trailer
In a Better World - Dinamarca - trailer
Tambien la Lluvia - Espanha - trailer
Kynodontas / Canino - Grécia
Confessions - Japão - trailer
Biutiful - México - trailer
Simple Simon - Suécia - trailer

Ainda não foi desta que Portugal teve uma nomeação, apesar do filme de João Pedro Rodrigues "Morrer como um Homem" ter tido uma boa recepção junto da crítica estrangeira, chegando a ser incluído nos tops dos melhores filmes do ano de revistas como a "New Yorker" ou "Cahiers do Cinema" (7º). Aliás, a grande ausência desta lista é mesmo o melhor filme do ano para os Cahiers e vencedor em Cannes em 2010, "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives" do tailandês Weerasethakul, o que mostra a contínua, se não crescente, ruptura entre a Academia e festivais como Cannes/Veneza/Berlim na valorização do cinema de autor. Entre as ausências de notar também que o filme francês "Des Hommes et des Deux" de Xavier Beauvois (2º lugar em Cannes) não foi escolhido; quanto a "I Am Love", este não foi a escolha da academia italiana, tal como "Lebanon" não foi a escolha da academia israelita.

A grande e agradável surpresa é a inclusão de "Kynodontas" (Canino). É uma menção que poderá ajudar a divulgação deste brilhante filme, não deixa de ser já uma honra atingida e se oferece alguma esperança em relação ao futuro ou uma abertura da Academia a uma obra fracturante e arriscada como esta, será muito difícil passar à lista final (mas, o ano passado a surpresa foi a nomeação do peruano "La Teta Assustada").

Favoritos à selecção final parecem ser:
- "In a Better World", vencedor já do Globo de Ouro e talvez o maior favorito (The lives of two Danish families cross each other, and an extraordinary but risky friendship comes into bud. But loneliness, frailty and sorrow lie in wait)
- o sul-africano "Life, above all" (an emotional and universal drama about a young girl who fights the fear and shame that have poisoned her community. The film captures the enduring strength of loyalty and a courage powered by the heart - it is based on the international award winning novel "Chanda's Secrets")
- o canadiano "Incendies(a mother's last wishes send twins Jeanne and Simon on a journey to Middle East in search of their tangled roots. Incendies tells the powerful and moving tale of two young adults' voyage to the core of deep-rooted hatred, never-ending wars and enduring love)
- o mexicano "Biutiful", o novo filme de Alejandro González Iñárritu, desta vez sem a colaboração do seu argumentista de Amores Perros e 21 Grams
- para o 5º talvez o argelino Hors la Loi, no que seria a segunda nomeação para Rachid Bouchareb depois de Indigènes; ou o espanhol "Tambien la Lluvia", já que a combinação Cristovão Colombo e Gael García Bernal tem sempre potencial, mas a vitória deverá ser disputada entre os outros nomeados.

(mais em: www.incontention.com)
* últimos vencedores em Cannes:

2010: Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives
2009: The White Ribbon [nomeado para Oscar Melhor Filme]
2008: The Class [nomeado para Oscar Melhor Filme]
2007: 4 Months, 3 Weeks and 2 Days
2006: The Wind That Shakes the Barley
2005: L'enfant

janeiro 14, 2011

Winter's Bone

Winter's Bone, de Debra Granik, EUA 2010, 8/10


O minimalismo patente em Winter's Bone tem um único objectivo: deixar-nos sozinhos com a personagem central, uma indómita rapariga de 17 anos face aos elementos adversos que ela tem de enfrentar. Os planos longos e distantes, repetindo-se erodem a nossa resistência e delapidam a vontade de Ree, numa composição ambiental sem misericórdia, essencial para criar empatia com a personagem e também para delimitar a fronteira desta vida, estabelecendo a impossibilidade da ideia de um outro mundo. O notável em "Winter's Bone" é a facilidade com que nos perdermos no isolamento intemporal da situação das suas personagens. O filme tanto podia ocorrer há cinquenta anos atrás, como daqui a cinquenta anos, que não notariamos diferença - tal é a arrogância isolacionista do espaço - o que é suficiente para evidenciar o redutor ciclo que é vivido dentro do filme. Uma geração dá lugar a outra geração, repetem-se erros e fecham-se portas, enterram-se futuros.

No meio de rivalidades mundanas entre familiares, negócios de drogas, que apenas reforçam a precariedade de como se tenta sobreviver nesta comunidade, e sentimentos de impunidade, que se alimentam de vidas à margem da sociedade e da sua lei, fica apenas o vazio no centro. No meio de uma floresta de árvores solitárias, a luta de Ree em sustentar os irmãos mais novos é contrariada pela debilidade de uma mãe dormente e pela procura de um pai de corpo desaparecido. A lenta claustrofobia em que o filme nos envolve é definida na sua escuridão. Sempre num tom retraído de imagens que ardem, o interior profundo desta america esquecida é acima de tudo ameaçador. Entre assegurar a próxima refeição, sobreviver ao inverno frio e desafiar a rede de figuras locais poderosas que envolve a família próxima, para tentar desvendar o que aconteceu ao pai, Ree é castigada por personificar uma ameaça como alguém que se desvia da ordem instalada, que não se rende às evidências. É este perigo que encarna que é criminal para quem está habituado a esconder os males do seu modo de vida. À medida que vai sendo percorrido o caminho escolhido por Ree mostra-se implacável, mas tem de segui-lo até ao fim.

A exposição no filme sobre o que vai acontecendo e o contexto apresentado são diminutos, e muitas vezes o filme é contado através de silêncios demorados. É a dinâmica da investigação que sustenta o filme, mas são as feições feridas de Ree pelo vento gélido que revelam mais história que qualquer exposição conseguiria. É através deste balanço entre composição ambiental e narrativa nebulosa que o filme se alinha com uma corrente recente, que se destaca pelo ressurgimento de um estilo formal próximo do neo-realismo mas que se transforma num realismo quase onírico. Tal como Samson and Delilah ou Wendy and Lucy, estes filmes acrescentam ao objectivismo com que são filmados um cenário particular no seu isolamento, aludindo a um etéreo negro de Terrence Malick em Badlands ou Days of Heaven.


A cena mais importante do filme tem um impacto tão devastador precisamente pelas fronteiras que estabelece durante o filme. É a única cena que se desenrola temporariamente fora do cenário das montanhas, em que Ree se desloca a um centro de recrutamento do exército americano para averiguar as possibilidades de abandonar o mundo que conhece mas revela uma saída demasiado custosa - é o choque com um outro mundo real materializado naquela sala e o choque de não ter qualquer saída. Outras portas que se fecham.