maio 08, 2011

Pina (3D)

Pina de Wim Wenders, Alemanha/França 2011, 9/10
nomeado para Oscar Melhor Documentário 2012


Transferir a linguagem de Pina Bausch para o cinema foi o desafio de Wenders ao celebrar o trabalho da famosa coreógrafa. Quando nos referimos a Pina estamos a falar de alguém que trabalhou uma nova forma de linguagem - linguagem quase tangente ao cinema, ou pelo menos com ambições de extravasar as dimensões do palco. Era portanto obrigatório ultrapassar as limitações da simples recriação, e o problema não era só como capturar as peças de Bausch sem se tornar num mero registo anónimo, mas como fazer justiça à sua obra e à sua intemporalidade - inovar tal como Pina sempre fazia e conseguir que as suas peças atingissem o especator num total envolvimento. Mesmo com a participação de Pina Bausch, o projecto desenvolveu-se lentamente durante vários anos, numa colaboração que se apresentava de difícil concretização. Faltava dimensão, o mais importante, faltava descobrir como encenar a encenação sem ser demasiado teatral. Só com o aperfeiçoamento da técnica 3D é que isso acabaria por se tornar possível, mas tristemente, Pina acabaria por morrer dias antes de se iniciarem as filmagens. Foi necessário que Wenders, agora sozinho na sua visão, desse um novo rumo ao projecto, e o resultado é uma belíssima homenagem à obra e legado de Pina, e à influência que ela deixa sobre os interpretes da sua visão, sobre os que lhe chegaram mais perto.

O filme começa por jogar com a percepção do palco, com a falsidade da representação desse palco no cinema, ao sentar-nos num teatro com algumas filas de espectadores à nossa frente, como se estivessemos num teatro verdadeiro. Mas é ao passar, literalmente, para o lado de lá da cortina, com a chegada dos bailarinos, que entramos no filme, percebendo as possibilidades que Wenders quer oferecer. As peças apresentadas, que formam a linha narrativa do filme, são também as personagens principais do filme, já que os bailarinos se tornam anónimos, dissolvem-se na massa de corpos que suportam as peças, apesar dos breves depoimentos de cada um em que partilham as suas experiências com Pina. A própria Pina aparece por breves momentos em ensaios, não como figura central do filme, já que esse protagonismo é atribuido à sua obra. Da mesma forma que, através da exposição do seu método de trabalho, percebemos como Pina levava as pessoas a procurar e encontrar a sua obra a partir de si mesmos, não a partir dela.

O fôlego torna-se intermitente com a sucessão de números de dança, desde o inicial Rite of Spring, em que grupos separados de mulheres e homens se comportam como matilhas, num palco de terra batida, passando por Café Müller, onde bailarinas de olhos fechados criam caminhos entre cadeiras diligentemente desviadas por um homem. Estas peças icónicas da sua carreira (e da história da dança contemporânea) são apresentadas de modo envolvente, mesmo para quem não é conhecedor da matéria. É a habitação do espaço físico e a forma como é ocupado, raramente conseguida antes, que permite o filme ousar aproximar-se dos movimentos trabalhados dos bailarinos e replicar o sentimento de assistir a um espectáculo ao vivo.

É também quando Wenders transporta a acção para fora do seu habitat normal, que o filme se transfigura, é a forma de Wenders acrescentar a sua re-imaginação de contexto ao material de Pina. Ao colocar os bailarinos em cenários naturais à volta de Wuppertal, a cidade que Pina adoptou como ponto inicial de inspiração, somos presenteados não só com exteriores magníficos, mas com uma re-interpretação, uma re-visualização das peças, livres para se expandirem, para fugirem ao casulo do palco, não só através do 3D.

Com o filme, Wenders atinge o que se propunha e algo mais: um reinventar de possibilidades do cinema em capturar o que acontece em palco e transbordar isso para algo mais; um redescobrimento do trabalho de Pina Bausch, pela forma como lhe concede novo contexto, levando-o também a um novo público, que não teve a hipótese de o ver ao vivo; e uma renovação pessoal, já que encontra aqui o veículo perfeito para a continuação do seu cinema cerebral-sentimental. Há ainda tempo no final do filme para, depois de termos ouvido Jobim e Caetano Veloso, sermos presenteados com uma última dança de Pina ao som de um fado, que é a melhor conclusão que se poderia pedir, para guardar isto perto de nós.

março 24, 2011

Cinematografia


"In the original script there was no such ending. From the very beginning we were thinking of how to end this film, how to find this image that would just close the whole story. It was Roman’s idea, two weeks before we were supposed to shoot that scene. We wanted an evening, magic hour shot, mysterious and dark. And we didn’t want to show, we wanted to suggest that something dramatic may have happened. We took two or three takes and the last take was the best."

–Pawel Edelman, cinematógrafo de "The Ghost Writer"



"John Hillcoat, from the beginning, was very confidant in me. I could work with a lot of freedom. This shot was an improvisation. It wasn’t planned. The movie doesn’t have too many interior scenes and this was something we discovered right there on the set. Most of the movie wasn’t storyboarded and we were really glad that this was a shot that could show like a shadow without a specific shape that is being erased and it reflects the character and what he’s feeling at that moment and accentuates the drama. The water is, in a sense, erasing the past. I think it’s a really powerful moment in the story."

–Javier Aguirresarobe, cinematógrafo de "The Road"



"It’s very informational in a lot of ways.  It’s kind of a symbolic image as well, which I think gives it its strength.  The obvious thing was to show this from above to give this kind of web surrounding him, which I think is metaphorical for his position, but also the moment of ecstasy at the center of this thing, it’s like he’s caught in a spider’s web.  And it’s almost like an impossible place to be, so I think it’s a little bit mystical as an image.  You wouldn’t get yourself in the center of such danger, but that was obviously the character.  He was prepared to do that, which made him different to the other guys, and I think ultimately that’s what the film’s about."

– Barry Ackroyd, cinematógrafo de "The Hurt Locker"



"The first time I spoke to Darren, it was very clear that the inspiration for the visuals of the film was in the work of the Dardenne brothers, who directed “Rosetta” and “L’Enfant.”  That first shot was going to be much more complicated, a low, hand-held tracking shot that was going to move in on Mickey and turn around and start to discover his face.  We tried it and Darren decided it was much too complicated.  We decided to leave the camera in the back of the room with Mickey very small in the frame with his back to us and I think that right away it established the isolation of the character."

– Maryse Alberti, cinematógrafa de "The Wrestler"



"This shot can be seen as a compressed example of how we tried to treat the story throughout the film.  It pretty much followed the ideas Tomas and I had about how to show cruelty, action and supernatural elements and where to put focus.  We wanted to be close on Oscar and the way he experiences the situation, as well as have a platform to tell everything that happens in one shot.  I am not sure if it is the most “pretty” frame of the film, but it was very exciting to try to unravel and solve the puzzle of all present elements in this shot, technically, as well as emotionally.  I am very proud of Tomas and the way he dared to go with a climax that is so violent, but restrained and subtle at the same time."

– Hoyte Van Hoytema, cinematógrafo de "Let the Right One In"

* depoimentos recolhidos por incontention.com

março 10, 2011

O Vazio em Ozu



"O Vazio em Ozu": filme-concerto de kanukanakina (som) & cinemajunkie (imagem)

Sábado 12 de Março, 22h30 em Viana do Castelo, na AISCA - Associação de Intervenção Social, Cultural e Artística. (evento)

É um filme-concerto, uma performance musical de sonoplastia construída sobre uma projecção de imagens editadas a partir de filmes de Yasujiro Ozu (e outros realizadores japoneses). É também uma tentativa de encontrar uma linha narrativa na evolução das imagens do cinema japonês e da própria sociedade japonesa, e o papel de Ozu em revelar tudo isso numa viagem ao Japão através do seu cinema. Ozu é um dos mestres originais do cinema, que conseguiu desenvolver uma linguagem cinemática muito própria que é ao mesmo tempo moderna e primordial, que está presente em qualquer filme saído de Hollywood por estes dias. Foi essa linguagem, essa utilização das imagens para contar uma história que marcou o cinema japonês no período que a sua carreira atravessou, um estilo contemplativo que se extravasou para os seus contemporâneos no Japão: quer sendo apropriado por outros realizadores, quer provocando reacções para procurar uma linguagem alternativa (como Kurosawa ou Suzuki), ninguém era indiferente à importância do trabalho de Ozu.

Mu / 無 é o simbolo japonês que encontra tradução no conceito de vazio, nulo, e que Ozu adoptou como seu - é um conceito que paira sob toda a sua carreira e sob toda esta projecção. Diz-se de Ozu que filmou sempre o mesmo filme, com ligeiras variações e que nessas variações ínfimas podíamos observar a evolução da própria sociedade japonesa, das alterações nos seus costumes. Ozu observava inexoravelmente o núcleo familiar, as relações entre pais e filhos e a dicotomia tradição versus progresso. Os filmes de Ozu tentavam acompanhar as mudanças que marcavam a sociedade japonesa, desde a depressão económica dos anos 30 à recuperação do pós-guerra e consequente estabilidade e prosperidade. Com esta projecção pretendemos oferecer uma oportunidade de descobrir o início do seu trabalho que atravessou três décadas - desde os filmes mudos do início dos anos 30 à introdução das cores no final dos anos 50 -  e a construção de uma linguagem que se tornou um alicerce para o cinema actual.  Este caminho seguido de forma cronológica permite-nos ver não só a evolução do seu trabalho mas também a influência que teve junto de outros realizadores japoneses. Os ritmos de Ozu são repetidos, são sombrios, quase mecânicos - e aqui são investigados, amplificados, na procura do vazio que Ozu carregava consigo, até chegar à imagem final.

http://o-vazio-em-ozu.blogspot.com/
http://www.aisca.pt

março 03, 2011

Óscares no Ípsilon (ii)



the geeks are all right

Foi uma noite entretida na redacção do Público, a noite dos Óscares. Na companhia da equipa do Ipsílon e do outro vencedor do passatempo, João Lameira, o ambiente era descontraído quanto baste, mas havia sempre algo a acontecer (e os white russians ajudaram). Como oportunidade imperdível para assistir ao funcionamento da redacção de um jornal como o Público, era díficil não perder o olhar no trabalho coordenado de uma equipa dedicada a cobrir o evento em tempo real, entre Vasco Câmara como editor, Jorge Mourinha a moderar a discussão online ou os comentários de Luís Miguel Oliveira. O debate que se podia seguir no webchat extravasa muitas vezes para a redacção: Câmara escrevia que Nolan é um Danny Boyle novo-rico, Mourinha soltava uma gargalhada alta, trocavam-se algumas palavras sobre o Slumdog e o Inception, e Oliveira refugiava-se num comentário sobre o Crash ou o Blue Velvet (outros comentários da noite dignos de nota: "Winter's Bone" vem de "Deliverance", Bjork e Celine Dion são equivalentes). As maiores reacções, além das partilhadas e recorrentes admirações para com os comentadores da TVI, ainda foram para a vitória de Christian Bale e especialmente para a vitória de Tom Hooper, ou melhor para a derrota de Fincher. Se havia alguma resignação em relação ao triunfo de King's Speech, também era aceite e esperado o triunfo de Fincher como melhor realizador, opinião que reunia algum consenso na redacção (mesmo chegando-se à conclusão que "The Social Network" era pouco mais que música e argumento). Aliás, havia algum consenso entre os presentes sobre Black Swan ser o filme-candidato mais meritório, e algum menosprezo em relação a "King's Speech" e "The Kids are all right". O melhor comentário foi mesmo para o reservado LMO que face ao prémio de melhor realizador escreveu apenas "Tom Hooper, lol", é claro, sem um esboço de sorriso.

Tudo isto contribuiu para animar uma noite que acabou por ser retrogradamente saudosa, no que foi mesmo uma das cerimonias menos interessantes dos últimos tempos. Os Óscares não são apenas uma feira de vaidades e uma celebração de filmes comerciais, são importantes pela exposição que dão a filmes menos conhecidos que ficariam confinados às margens, e são importantes para medir as tendências de Hollywood (por muito conservadoras que sejam). Muito distante das cerimónias dos últimos anos em que distribuiram prémios e nomeações por vários filmes independentes ("No Country for Old Men", "There Will Be Blood",  "Into the Wild", "Michael Clayton", apenas em 2009; para não falar do ano passado, provavelmente os melhores Óscares dos últimos tempos), este ano o bom caminho que ia sendo seguido foi interrompido. A cerimónia foi quase apática, insípida e não ficará para a história, aliás como a maioria dos filmes nomeados, filmes de que a cerimónia é um reflexo. O conjunto de filmes destacados este ano eram seguros na sua maioria, apolíticos, tal como a cerimónia. O único momento fora da zona de conforto foi mesmo a vitória de Inside Job como melhor documentário e o discurso que se seguiu. Lembrou bem Charles Ferguson: "I must start by pointing out that three years after our horrific financial crisis caused by massive fraud, not a single financial executive has gone to jail, and that's wrong." (mesmo assim esta vitória impediu a celebração do filme de Banksy, cujo triunfo seria mais arriscado). Num ano em que o tema mais fracturante é a "falta de voz" da luta de quem gagueja, que finalmente foi reconhecido, isso mostra o autismo de Hollywood deste ano, que deixa filmes revisionistas da história recente e possivelmente polémicos como "Ghost Writer" ou "Fair Game" esquecidos. Mas como o próprio Spielberg lembrou no fim da cerimónia: "If you are one of the other nine movies that don’t win, you will be in the company of The Grapes of Wrath, Citizen Kane, The Graduate, and Raging Bull”.

videos:
Vasco Câmara comenta o fim da cerimonia - http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=7ca7885d-93d4-4dde-a5f2-b088323ce238
Luis Miguel Oliveira faz balanço provisório - http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=4dae2267-ad66-48a3-bf15-232e94e6f695
Jorge Mourinha faz antevisão - http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=8b9d00a9-11c8-427e-b02d-6c334a701317

fevereiro 25, 2011

Oscar 2011: Melhor Documentário

Nomeados:
Exit Through the Gift Shop de Banksy - 9/10
Inside Job de Charles Ferguson
Restrepo de Tim Hetherington Sebastian Junger - 8/10
Gasland de Josh Fox - 7/10
Waste Land de Lucy Walker

provável vencedor: Inside Job
favorito pessoal: Exit Through the Gift Shop
desejo para a noite dos Óscares: Mr. Brainwash a aceitar a estatueta no lugar de Banksy.

Inside Job


Inside Job de Charles Ferguson, EUA 2010, 9/10
nomeado para Oscar Melhor Documentário

Charles Ferguson já tinha desmascarado as operações da Casa Branca no Iraque em "No End in Sight" e volta a fazê-lo, agora sobre a crise financeira de 2008, de modo igualmente esclarecedor e acusatório, em "Inside Job". Aliás, de um modo tão informativo e conciso que podemos considerar "Inside Job" como análogo a outro documentário marco do género infomentário, "An Inconvenient Truth". Ao contrário do filme de Al Gore que tem apenas um orador, em "Inside Job" Ferguson apoia-se em depoimentos de vários peritos conceituados e envolvidos no tema, e a pluralidade de opiniões ajudam a formar o quadro completo do que se passou. Se é demasiado convencional dentro do género em que se insere, utilizando as típicas entrevistas, gráficos informativos e uma narração (Matt Damon) para ligar todas as peças, neste caso para conduzir o filme através de uma linha narrativa construída, isso só joga a seu favor dada a complexidade e abstracção do assunto abordado. A simplicidade com que consegue desarmar um tema complexo e enunciar as várias fases do problema numa estrutura cronológica acaba por ser um dos atributos do filme.

"Inside Job" revela-se o título perfeito para tudo o que aconteceu, e para o objectivo que o filme pretende demonstrar. Além de uma perfeita lição sobre o funcionamento e origem da crise, assistimos também a uma completa e incriminatória exposição de factos incontestados, que passa por mostrar como: uma política continua de desregulamentação e liberalização do sistema financeiro, a escolha de elementos ligados a bancos de investimento para lugares importantes no definir das políticas económicas da Casa Branca, a criação de produtos financeiros cada vez mais arriscados e artificiais, e o conluio entre bancos, empresas seguradoras e agências de rating, tudo em conjunto, contribuiu para o desmoronamento de um modelo. Inside Job tem outro trunfo escondido que realmente o eleva a algo de extraordinário, que passa então pelo título do filme e pela conclusão para o que o filme caminha em toda a sua narrativa. Na parte final, vários peritos são desmascarados como beneficiários directos das políticas e teorias que defendem, de um gravíssimo conflicto de interesses que normalmente os impediria de darem a sua opinião por perderem qualquer validade, aqui expostos pela primeira vez. O conflito de interesses não é só entre o governo, bancos e faculdades. Existe dentro do próprio filme, quando pessoas que passaram o filme todo a defender um ponto de vista são desmascaradas como ganhando quantidades obscenas de dinheiro a defenderem esse ponto de vista como consultadores para agentes financeiros, e esse desmascarar é notável, é o golpe de graça do filme. É um dos grandes males da economia actual: o facto de os definidores de políticas beneficiarem das teorias que apregoam, que lhes enchem os bolsos à medida que se vão provando nefastas para o resto da população, com resultados práticos bastante evidentes. O mais alarmante e a conclusão final do filme é que nada mudou, caminha-se ainda na mesma direcção, e a imunidade e conluio entre políticos, banqueiros e opinion-makers continua, preparando o próximo ataque.


fevereiro 24, 2011

Gasland


Gasland de Josh Fox, EUA 2010, 7/10
nomeado para Oscar Melhor Documentário

Ver que perante a proximidade da chama de um isqueiro a água que escorre da torneira de uma cozinha entra em combustão, ou animais a perderem pêlo e peso como se tivessem sido expostos a radiação quando apenas beberam água de um riacho nem é a coisa mais impressionante no filme. O documentário, realizado e produzido de forma quase artesanal com poucos meios tem um trunfo a seu favor, já que o realizador é alguém que foi directamente afectado pelo tema que aborda "Gasland". Após ter recebido uma proposta de uma companhia de energia para explorar os direitos minerais da sua propriedade, Josh Fox decide investigar o real propósito e possíveis consequências que aquela oferta envolve. Em pouco tempo descobre casos semelhantes ao seu, em que a aceitação da oferta teve resultados desastrosos: a contaminação das reservas de água que acontecem a partir da exploração de reservas de gás natural, através de um processo denominado "fracking". Basicamente, o tipo de perfuração utilizado para chegar ao gás acaba por fracturar o subterrâneo, quebrando as barreiras de separação entre as reservas de água e as reservas de gás. Depois, usando uma quantidade enorme de químicos tóxicos para extrair o gás para a superfície, estes químicos acabam por contagiar a água. Esta contaminação da água e do subsolo, não é anunciada nem prevenida pelas empresas que extraem o gás, e pior, acaba por pôr em perigo a saúde das pessoas que habitam essas áreas ou vivem da água, agricultura ou animais subjacentes a esses solos. Fox, como narrador-investigador do documentário revela inúmeros casos de pessoas que adoeceram, alguns entrevistados durante o filme, e alguns casos em que as pessoas não sobreviveram. Porque o mais assustador em "Gasland" é a escala a que se joga com a saúde pública, a saúde de pessoas que no filme deixam de ser meras estatísticas para terem uma cara. É a sustentabilidade do futuro de uma sociedade que é arriscado aqui. O que é realmente assustador e exposto em Gasland é a cegueira corporativa e o conluio político apresentados, o ponto até onde se está disponível a ir na procura de lucros, a ocultação dos estragos ambientais, a compra de silêncios ou a litigação contra quem ameaçar expor o perigo real.

Em Gasland é como se assistíssemos finalmente à materialização dos perigos expostos em "Food Inc.", como se de repente fosse mais fácil ver os efeitos da poluição escondida e a contaminação dos alimentos quando se abrem aquelas torneiras cuja água é inflamável. É como ver finalmente uma representação física da ganância explorada em "Inside Job", dos incentivos aos ganhos a curto-prazo que motivam a indústria, ao mesmo tempo que se envenena, literalmente, as reservas futuras de água. É mesmo uma explosão de clarividência que é impossível não notar, abismados. Fox parte num road movie à procura de mais exemplos, mais testemunhos, que vão surgindo à medida que a exploração do gás se vai multiplicando por diferentes campos de extracção, e aparecem diferentes casos de contaminação e doença. É também uma viagem pela américa rural, américa esquecida e sacrificada. Mesmo que o formato deste documentário se revele limitado, e que falte um estudo mais esclarecido e conciso do problema envolvendo depoimentos de peritos na área como existe em "Food Inc.", apesar da repetição que se instala quando deixa de haver novo material e alguns passos em falso ao puxar por momentos emocionais, que não têm ligação com o espectador, "Gasland" é importante. É um abrir de olhos necessário a um problema que está demasiado escondido no subterrâneo da agenda jornalística e uma chamada de atenção para o perigo de combustão do modo de vida e modelo da sociedade.