março 03, 2010

Ajami

Ajami, de Scandar Copti e Yaron Shani, Israel 2009, 7/10

É um drama multi-facetado que segue diferentes linhas narrativas acompanhando um painel de várias personagens de um pobre bairro israelita - Ajami, da cidade maioritariamente árabe de Jaffa, a sul de Tel Aviv. Constituído por cinco capítulos-vinheta explora as histórias segundo os variados pontos de vista das personagens que vão desde um imigrante clandestino palestiniano a um polícia israelita obcecado com o irmão desaparecido em Gaza, mas focando-se principalmente nas divisões e conflitos entre as famílias árabes israelitas, muçulmanas e cristãs. A narrativa que é quebrada tipo puzzle, ao estilo de Magnolia ou Crash, no sentido em que caminha todo o filme para uma resolução no final, pode ser por vezes confusa ou artificial no modo como arranja coincidências de forma a que nem tudo seja o que pareça a uma primeira vista, mas neste caso não há uma sobreposição exagerada das diferentes linhas, funcionando na maioria das vinhetas como capítulos estanques através das acções das personagens. O motif comum é uma exploração das tensões inter-religiosas entre as diferentes famílias que habitam o bairro, uma divisão clara entre muçulmanos e cristãos e judeus que afecta a vida de todos - como a morte de alguém logo no início força famílias a escolher um lado, que o dinheiro pode resolver mas nunca é suficiente num quadro de empregos precários e pequenos crimes que força a mão de alguns personagens enquanto outros caminham impunemente entre os dois lados da lei, e como outra personagem se subjuga a tudo para arranjar o dinheiro suficiente para ajudar a pagar uma operação à mãe na Palestina, isto é: como todo o imediatismo destes problemas parece diluir qualquer mundo que exista para lá daquele bairro - o importante é sobreviver ao agora.

Através da utilização de um estilo naturalista de filmagem, numa aproximação ao registo documental ou até ao cinéma-vérité, o filme procura criar a ilusão de como espectador estarmos sempre presentes no meio da acção, quase como parte envolvida. É uma escolha que se adequa à preocupação social explorada, numa emulação da realidade como verdade através do uso permanente da câmara ao ombro, se bem que nunca sai deste registo e existem poucos movimentos deliberados ou composições planeadas, numa prova de que a encenação é refém da acção. Este enquadramento é apenas abandonado no início e fim do filme, que introduzem um registo fantasioso e supostas capacidades premonitoras para indicar a visão do personagem que supostamente narra o filme mas que é esquecido na sua maior parte, um ponto de vista de uma criança (irmão mais novo de um dos personagens que tem direito a um capítulo próprio) que não parece ser capaz de compreender a complexidade das acções à sua volta, num passo em falso do filme que pode fragilizar as intenções do filme como obra de aproximação à verdade. Se o objectivo do cinéma-vérité é a imersão numa realidade como substituto próximo da verdade, isso dificilmente poderá passar apenas pela encenação sem a utilização desse estilo para provocar uma ligação emocional com as personagens e o seu destino - isso é algo que nunca é completamente atingido em Ajami, quer pela escala escolhida pelo filme quer pelas acções e motivações ambíguas da maior parte dos protagonistas.

É uma encenação a um tom único, que apesar disso mantém um ritmo elevado e cativante num cenário permanentemente violento e de ramificações complexas, mas quando a camâra se atira para o meio de uma confusão entre personagens a reagir a quente a qualquer acontecimento (sempre resolvido com empurrões e insultos) pela quinta vez teme-se uma estagnação inconsciente da narrativa, mas curiosamente é nos momentos em que o filme abranda, ao abordar um romance impossível entre um árabe muçulmano e uma árabe cristã, que mesmo sendo um cliché permite ao filme uma liberdade da narrativa e do estilo para criar das mais comoventes sequências do filme: nos toques subtis de mão entre os namorados ou a troca de uma pastilha elástica debaixo de olhares suspeitos do pai, e a sequência do diálogo entre o pai e a filha depois de descoberto o romance, crudemente estabelecendo a força da tradição, momento alto do filme que serve para definir um ponto de não retorno, de duro confronto com a realidade e de começo da espiral descendente do último acto.

3 comentários:

Dioniso disse...

Ajami é um filme que se torna importante sobretudo porque volta a pegar no conflicto israelopalestiniano e propõe uma leitura interessante. Num pequeno universo de personagens focam-se problemas de ordem religiosa, familiar, emocional e política.

De facto, tem referências muito fortes a Crash. Se neste último as coincidências e os caminhos que inevitavelmente cruzam todos os personagem faziam uma espécie de apanhado aos grandes problemas sociais nos EUA (emigração, violência, racismo,etc...) Ajami escolhe uma guerra que cada vez mais faz parte da identidade cultural destes povos, seja por um campo emocional e transgeracional de raiva, ódio e vinganças, seja por motivos mais institucionalizados como a religião e a política. Em Ajami resulta muito bem porque esta proximidade de caminhos, esta cadência para um final trágico servem de metáfora ao panorama que é por lá vivido. A vizinhança entre Israel e Palestina e todos os problemas que daí advêem não são mais do que um cruzar de caminhos, problemas e situações que quase todas as famílias testemunham e quase todas as pessoas conhecem. É na verdade uma rede de acontecimentos que numa primeira análise poderão ser coincidências, mas que traduzem bem as consequêncas de um conflito aparentemente sem solução.

Em resumo, um bom filme.

JA disse...

Sim, se Ajami tem um alcance menos ambicioso que Crash ao centrar-se nas relações inter-religiosas e inter-raciais, isso funciona a favor do filme pelo tom claustrofóbico que consegue atingir ao cingir a acção àquele bairro, quase sem permitir ver além do muro que o filme parece construir à sua volta, com as personagens completamente imersas no imediatismo dos seus problemas que os leva por um caminho estreito até ao desespero

Dioniso disse...

Concordo em absoluto!