março 03, 2010

The Hurt Locker: apolítico?

Bigelow: My Film Does Take a Stand -- Against Futility of Iraq War (thewrap.com)

-- I keep reading about how the movie doesn’t take a political point of view, but it seems clear to me that you have a pretty strong point of view. As you say, it's a hellish situation and we have no business sending our men into it.
Bigelow: Well, that’s certainly my feeling. I’m a child of the ‘60s, and I see war as hell, and a real tragedy, and completely dehumanizing. You know, those are some of the great themes of our time, and we made a real effort to portray the brutality and the futility of this conflict.

-- So you would say that the movie does indeed take a stance?
Bigelow: I guess my feeling is that graphic portrayals of innocent children killed by bombs, and soldiers incapable of surviving catastrophic explosions … I think that’s pretty clear. And then also, to add to that, the movie opens with a quote, “The rush to battle is often a potent and lethal addiction, for war is a drug.” So it’s definitely taking a very specific position. (...) And also, it’s been extremely gratifying that it allows a kind of exposure to a film that is a tough, graphic portrayal of a very tough subject, America’s most unpopular war. And I’m gratified by the fact that all of this attention that comes with this circuit, has served to remind us that this war is still ongoing, and this conflict is now nine years out in Afghanistan, and eight years out in Iraq. It’s not only America’s most unpopular war, but I think it’s arguably its longest engagement.

(à esquerda: foto do britânico Tim Hetherington vencedora do World Press Photo Award 2008, celebrada por questionar a guerra no Afeganistão; à direita: imagem do filme de Kathryn Bigelow)

3 comentários:

imartins disse...

Parece-me que a questão sobre a mensagem politica de Hurt Locker tera que ser contextualizada e apenas faz sentido num referencial. Em absoluto, é impossível que um filme sobre guerra não tenha um aspecto politico.
De modo a construirmos um referencial, coloquemos de um lado “Taking Chance” e no outro, filmes como “Redacted”, “Stop-Loss” e “Standard Operating Procedure” (SOP).
Taking Chance, Redacted e SOP são retratos mais mono-tónicos dos quais emana uma mensagem relativamente clara sobre a presença militar dos EUA no Iraque. Tal contrasta com Hurt Locker na medida em que neste as personagens e eventos são apresentados de uma forma multi-facetada e ambígua. Veja-se por exemplo, a complexidade que a construção do personagem principal atinge em Hurt Locker. O contraste também é evidente entre as atitudes das personagens perante a experiência de guerra. Por exemplo, um aspecto central da acção de Stop-Loss é a fuga ao recrutamento enquanto que Hurt Locker termina com um realistamento voluntário. É interessante observar que embora diametralmente opostas, estas expressões de vontades individuais, sejam ambas interpretadas de forma muito semelhante - como demonstrações contra a presença militar dos EUA no Iraque.
A meu ver, a politica em Hurt Locker é um aspecto secundário do filme. Poder-se-ia falar com maior objectividade sobre a agenda política de Hollywood e como a percepção da mensagem politica de um filme poderá influenciar a produção do mesmo e a sua recepção pelos “membros da academia”.

JA disse...

Certo, há 2 aspectos a considerar quando se classifica a mensagem de Hurt Locker, que passa por contextualizar a questão: se o filme é anti-guerra em geral, e/ou anti-guerra que descreve (Iraque); se é muito mais fácil fazer uma leitura crítica da guerra em geral em quase todos os filmes que retratam situações de combate, nem que seja pela simples exposição de acções grotescas e perdas de vida, por outro lado são poucos casos que conseguem convincentemente fazer um caso pró-guerra, mesmo que baseado em falsos sentimentos de patriotismo e honra – o exemplo do Taking Chance é muito bem apropriado como exemplo disso.

E também é verdade que os outros casos que falas são realmente muito mais mono-tónicos, simplistas na sua análise do problema: se Taking Chance é forçadamente moralista, os outros filmes no outro expectro da questão (ex: Redacted) também sofrem um pouco de uma visão parcial na sua abordagem. E é por isso, pela complexidade da construcção de Hurt Locker, pela dificuldade em fazer leituras fáceis que a mensagem de Hurt Locker tem um significado muito mais poderoso: lá está, não tem uma agenda explícita, mas algo que resulta de uma complexa observação da realidade. E se em Stop-Loss a fuga ao recrutamento é algo imediato (ainda que compreensível), o realistamento no final de the Hurt Locker é muito mais significativo, e isso só acontece devido a uma leitura política das cenas que decorrem na américa; agora a crítica específica em relação à guerra no Iraque passa mais por uma contextualização actual: desde o “pesadelo” que nunca mais acaba que contínua a danificar soldados no seu regresso (“The Messenger” é outro exemplo, mas muito mais abstracto na sua mensagem), ao erro inicial da invasão que continua a ter consequências imediatas para a população iraquiana.

Apenas fui buscar as declarações recentes de Bigelow porque o filme tem sido celebrado pela crítica precisamente por ser isento de mensagem, como se o facto de apenas apresentar os factos do terreno não ser propício a uma leitura política. E se também é verdade que essa leitura pode ser reflexo de uma vontade da parte liberal de Hollywood de mostrar uma consciência activista, a campanha do filme tem tentado menorizar esse aspecto para não criar divisão em torno do filme e atingir um maior consenso.

Dioniso disse...

O prólogo é ambicioso: “war is a drug”. Na minha perspectiva, a grande riqueza do filme reside no relato de uma experiência íntima de um grupo de guerra sem querer assumir posições ou mensagens políticas (ou de justiceiro). Apenas pretende relatar o que é um campo de batalha onde não há regras, onde os combates se fazem sem inimigos definidos; é uma declaração de que a guerra é sempre uma experiência limite.

Se de um lado temos um Born on the Fourth of July do Oliver Stone, (também vencedor de Oscar para melhor realizador) com claro discurso político e associado a uma densidade emocional e psicológica de um combatente que regressa a casa, em Hurt Locker disseca-se a psicologia de guerra durante a próprio confronto, sem mensagens políticas evidentes e apenas como principal missão a partilha de um olhar que compara a guerra a uma droga, a uma experiência limite que quebra todas as lógicas e motivações. A guerra para Bigelow é o limite de uma explicação sobre o modo do homem se adaptar ao mundo e ao meio social mais próximo. Há uns que vão e voltam (mas nunca mais os mesmos), outros que decidem ficar porque então tudo parece adquirir uma nova estrutura afectiva, sentimental, de missão para a vida. No primeiro é um regresso a casa revoltado com a guerra, no segundo um voluntarismo de regresso à adrenalina, sem questionamentos.

Acho que mais uma vez o fim do filme é o pior, qual rambo a rumar ao horizonte para desarmadilhar mais uma bomba... Pedia-se mais.