janeiro 15, 2020

Junkie Awards: top 2019



Para a 22ª edição dos Junkie Awards, este foi o meu top10 escolhido para o À Pala de Walsh.
o top conjunto pode ser lido aqui

  1. Beoning de Lee Chang-dong
  2. Napszállta (Anoitecer, 2018) de László Nemes
  3. Once Upon a Time… in Hollywood de Quentin Tarantino
  4. Vitalina Varela de Pedro Costa
  5. Gisaengchung de Bong Jonn-ho
  6. Ahlat Agaci (A Pereira Brava, 2018) de Nuri Bilge Ceylan
  7. Jiang hu er nü de Jia Zhangke
  8. Transit de Christian Petzold
  9. Bacurau de Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho
  10. Se rokh de Jafar Panahi
menção honrosa: Sorry We Missed You de Ken Loach, Ad Astra de James Gray, Netemo sametemo (Asako I & II, 2018) de Ryûsuke Hamaguchi, The Mule de Clint Eastwood, Dolor y gloria de Pedro Almodóvar, Terra Franca (2018) de Leonor Teles e Monrovia, Indiana de Frederick Wiseman.

janeiro 15, 2019

Junkie Awards: top 2018



Para a 21ª edição dos Junkie Awards, este foi o meu top10 escolhido para o À Pala de Walsh.
o top conjunto pode ser lido aqui

  1. First Reformed de Paul Schrader
  2. Happî awâ de Ryûsuke Hamaguchi
  3. Columbus (2017) de Kogonada
  4. Shoplifters de Hirokazu Koreeda
  5. Phantom Thread de Paul Thomas Anderson
  6. Call Me by Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome, 2017) de Luca Guadagnino
  7. Roma de Alfonso Cuarón 
  8. You Were Never Really Here (Nunca Estiveste Aqui, 2017) de Lynne Ramsay
  9. Cinema Novo (2016) de Eryk Rocha
  10. Western de Valeska Grisebach
menção honrosa: Lazzaro felice de Alice Rohrwacher, The Florida Project de Sean Baker, No Intenso Agora de João Moreira Salles, A Ciambra de Jonas Carpignano, Zama de Lucrecia Martel, The Killing of a Sacred Deer de Yorgos Lanthimos, BlacKkKlansman de Spike Lee, A Quiet Place de John Krasinski, L’amant d’un jour de Philippe Garrel, e finalmente, Le livre d’image de Jean-Luc Godard. Menção ainda para o melhor filme deste ano sem direito a estreia comercial: Annihilation de Alex Garland.

janeiro 15, 2018

Junkie Awards: top 2017



Para a 20ª edição dos Junkie Awards, este foi o meu top10 escolhido para o À Pala deWalsh.
o top conjunto pode ser lido aqui

  1. Manchester By the Sea Kenneth Lonergan
  2. Aquarius de Kleber Mendonça Filho
  3. A Fábrica de Nada de Pedro Pinho
  4. Paterson de Jim Jarmusch
  5. Good Time de Ben Safdie e Joshua Safdie
  6. I Am Not Your Negro (Eu Não Sou o Teu Negro, 2017) de Raoul Peck
  7. Personal Shopper de Olivier Assayas
  8. Toivon tuolla puolen de Aki Kaurismäki
  9. Eldorado XXI (2017) de Salomé Lamas
  10. Toni Erdmann de Maren Ade
menção honrosa: Verão Danado de Pedro Cabeleira, Ama-San de Cláudia VarejãoPlemya de Myroslav Slaboshpytskyi, Lady McBeth de William Oldroyd, The Square de Ruben ÖstlundMoonlight de Barry JenkinsGet Out de Jordan Peele, The Lost City of Z de James Gray.

janeiro 26, 2017

Junkie Awards: top 2016

Saul fia (O Filho de Saul, 2015)

este foi o meu top10 escolhido para o À Pala deWalsh. o top conjunto pode ser lido aqui

1. Saul fia (O Filho de Saul, 2015) de László Nemes
2. Cartas da Guerra (2016) de Ivo Ferreira
3. Nocturnal Animals (Animais Noturnos, 2016) de Tom Ford
4. American Honey (2016) de Andrea Arnold
5. El abrazo de la serpiente (O Abraço da Serpente, 2015) de Ciro Guerra
6. Boi Neon (2015) de Gabriel Mascaro
7. Shan he gu ren (Se as Montanhas Se Afastam, 2015) de Jia Zhang-ke
8. Fuocoammare (Fogo no Mar, 2016) de Gianfranco Rosi
9. O Ornitólogo (2016) de João Pedro Rodrigues
10. Rak ti Khon Kaen (Cemitério do Esplendor, 2015) de Apichatpong Weerasethakul

Eldorado XXI (2016)

Eldorado XXI (2016) de Salomé Lamas

Eldorado XXI (2016) de Salomé Lamas, 9/10

texto retirado da cobertura ao Porto/Post/Doc 2016 publicado aqui

Outro filme que representa uma verdadeira viagem às trevas é Eldorado XXI (2016) de Salomé Lamas. A diferença é que aqui o pesadelo é visível à superfície, ocupa toda a paisagem, e por isso é mais obsceno. O filme representa uma continuação do trabalho de Lamas no estudo de comunidades que sobrevivem nas margens da sociedade, e ao mesmo tempo de afirmação de um rigor formal – a forma como aqui filma a natureza remete para a sua anterior curta A Torre (2015), particularmente pelo uso do plano fixo – mas acima de tudo, reafirma um trabalho sobre a representação da memória, indicador da dedicação a registar um tempo que perdura enquanto não se extingue. O tema do filme é La Rinconada, uma remota aldeia mineira no Peru, situada a 5500 metros de altitude, onde uma legião de pessoas que se confundem partiu num último suspiro, à procura de uma sobrevivência condenada à partida. Após uns breves planos a mostrar a localização desta colónia mineira, a câmara fixa-se numa encosta a observar uma procissão de trabalhadores anónimos num sobe e desce, num plano que se prolonga por quase uma hora, enquanto a escuridão se apodera lentamente da imagem. É um plano duro, equivalente à aridez do local e desamparo daquelas pessoas, mas que se revela recompensador com a passagem do tempo. Após alguns minutos surge uma emissão da rádio local a acompanhar as imagens, e ouvimos relatos das condições de vida, das histórias do passado de algumas das pessoas, das dificuldades e implicações na saúde daquele trabalho.

O filme estabelece assim com aquele plano um diálogo com o espectador, que muito antes de ver as condições em que vivem e trabalham aquelas pessoas, começa a imaginar e a tentar recriar como será possível a vida naquele sítio e naquele momento, algo que será desvendado apenas nos planos seguintes. Apesar de alguns momentos notáveis que sublinham a coragem de algumas das pessoas que estão numa situação frágil, e em particular mulheres, ao organizarem-se para ultrapassar carências daquela comunidade, Eldorado XXI é um verdadeiro pesadelo anestesiante que funciona como um murro no estômago. O paralelo criado entre o sacrifício daquelas pessoas numa última esperança de subsistência, num sítio onde a esperança já não chega, e a destruição sobre a natureza, que aparece como derradeiro legado de um capitalismo predatório, funciona como uma metáfora para a humanidade. Também por isso, Eldorado XXI foi um justo vencedor da competição do festival, e não deixa de ser curiosa a ligação com o vencedor do ano passado, Beixi Moshuo (Behemoth, 2015), um filme que começa com uma série de explosões numa mina. Behemoth é o nome de uma criatura mitológica que se alimentava de montanhas e El Dorado remete para uma ideia de encontrar riquezas milagrosamente – são as lendas do passado a voltar como avisos contemporâneos.

Under The Sun (2015)

Under The Sun (Debaixo do Sol, 2015)

Under The Sun (Debaixo do Sol, 2015) de Vitaly Mansky, 9/10

texto retirado da cobertura ao Porto/Post/Doc 2016 publicado aqui

В лучах Солнца – Under The Sun (Debaixo do Sol, 2015) de Vitaly Mansky é outro exemplo do legado de The Act of Killing, e aqui a recriação é permanente e dirigida pelo regime, um estratagema preferido de Estados pouco transparentes. Mansky informa logo no início com uma pequena nota que foi sempre acompanhado pelas autoridades norte-coreanas durante a sua estadia, e que desde o argumento, aos locais e até às pessoas filmadas, tudo foi imposto ao realizador – a única coisa fora do controlo é mesmo a câmara. E Mansky começa por desconstruir a realidade aparente quando mostra o que acontece entre os supostos planos, nas margens dos limites permitidos, ao revelar os diferentes takes da mesma cena e as indicações das figuras do regime às pessoas transformadas em actores (“age naturalmente, como se não estivesses num filme” ouvimos fora de campo). Uma idílica cena de um jantar abundante em família é orquestrada ao pormenor para enaltecer as virtudes da sociedade norte-coreana, mas é logo desmontada em “directo” pelo filme, com a criança a ser obrigada a repetir a mesma frase ou enaltecer a qualidade da comida.

Porém Mansky tenta também ultrapassar as barreiras que lhe são impostas ao filmar os rostos das pessoas, ao deter-se assim em pormenores que poderiam passar despercebidos não fosse o seu olhar atento: a expressão vazia das crianças na escola, o medo perante a autoridade da professora, as mãos juntas que procuram aquecer-se contra o frio na sala de aula. Nesta tentativa de aproximação Mansky parece perceber que há uma impossibilidade de chegar às pessoas que filma, impenetráveis no seu isolamento, tão distantes do mundo que conhecemos, soterradas por um terror psicológico. O filme acompanha de perto uma família representativa da sociedade norte-coreana, e a violência do alcance do regime e o medo de falhar são mais visíveis na pressão suportada pela filha do casal. Escolhida para representar a escola em mais uma celebração do seu líder, Manksy ultrapassa finalmente o problema da anestesia emocional das personagens e o manto de ocultação mantido pelo regime com o acompanhamento desolador dos nervos da criança numa cena dolorosa. Instada a distrair-se com uma memória boa para afastar os nervos, não consegue lembrar-se de nenhuma, e quando lhe pedem para cantar uma canção alegre, apenas consegue lembrar-se de uma ode a Kim Jong-un. Under the Sun é assim um brilhante exercício de desconstrução de um sistema de controlo, encoberto e subtil no seu método, e por isso ainda mais devastador.

Ama-San (2016)

Ama-San (2016) de Cláudia Varejão

Ama-San (2016) de Cláudia Varejão, 7/10

texto retirado da cobertura ao Porto/Post/Doc 2016 publicado aqui

Existem diversas formas de mostrar coragem, e uma tradição pode ainda ser uma forma de perturbar o status quo. Ama-San (2016) de Cláudia Varejão é um primoroso retrato de uma tradição milenar no Japão. Depois de Salomé Lamas no Peru, temos aqui outra realizadora portuguesa a viajar para o outro lado do mundo para resgatar do desconhecimento e eternizar uma comunidade singular. Sem contexto, vamos às escuras e assim o encanto perdura mais tempo, e cada gesto ganha maior importância pelo significado que procuramos nas imagens. O filme acompanha um grupo de mulheres do mar (as ama-san) numa península de pequenas vilas piscatórias, que se dedicam a uma forma de pesca através do mergulho em apneia, uma prática perpetuada há vários séculos, e que ainda é próxima da sua forma original. O respeito pela forma tradicional desta pesca, desde o lenço em que envolvem a cabeça como protecção, até à recusa em usar oxigénio, apenas reforça a dificuldade da tarefa a que estas mergulhadoras se dedicam de forma rotineira, porque para elas sempre foi assim, como é enaltecido pelas belíssimas imagens debaixo de água onde as amas se movimentam livremente.

Ao mesmo tempo estas mergulhadoras encarnam um papel de afirmação feminista pela sua bravura e inversão do seu papel tradicional numa sociedade muito conservadora, algo que surge naturalmente – os homens muito raramente aparecem no filme. A forma como Varejão acompanha o processo de trabalho das ama-san reafirma a naturalidade com que tudo se desenrola, mesmo que para o espectador longínquo seja exótico. Parte do mérito do filme provém da proximidade com que Varejão filma as amas, para o qual também contribuem os momentos em casa, reveladores que também nesse cenário estas mulheres não são menos incansáveis. Com a passagem do tempo, passamos também a encarar com naturalidade este modo de encarar a vida, e o filme transforma o excepcional em natural, porque assim o deve ser.

Bangkok Nites (2016)

Bangkok Nites (Noites de Bangkok, 2016) de Katsuya Tomita

texto retirado da cobertura ao Porto/Post/Doc 2016 publicado aqui

Bangkok Nites (Noites de Bangkok, 2016) de Katsuya Tomita  - 7/10

Bangkok Nites (Noites de Bangkok, 2016) de Katsuya Tomita é um objecto complexo e fascinante, que utiliza o disfarce de filme documental para contar uma história de interligações entre personagens num universo de alienação. Os primeiros momentos do filme indicam estarmos perante uma abordagem documental em relação ao ambiente nocturno da cidade tailandesa e de um bordel em particular, com a câmara a seguir implacavelmente as personagens deste mundo. Porém, à medida que a trama narrativa avança, fica claro que estamos no domínio da ficção encenada, por muito que inspirado numa estética naturalista. Se a duração longa podia jogar contra o filme, aqui revela-se um dos seus trunfos, ao aumentar a imersão nesta compartimentação de uma realidade de assimilação lenta. Uma exposição reveladora do ambiente à volta do tal bordel resulta num desfile de personagens exóticas: de um lado as raparigas, na sua maior parte originárias das aldeias à volta de Bangkok, que são apresentadas numa espécie de tableau à disposição dos clientes; do outro lado os clientes, na sua maioria japoneses embriagados, que servem-se deste triste mercado. Mas o filme parece pouco interessado numa simples representação crua e já várias vezes repetida desta paisagem sórdida, e mais interessado numa aproximação às feridas emocionais que estas vidas de abandono acarretam.

Bangkok Nites detém-se no encontro por acaso entre duas personagens, que outrora partilharam um passado em comum importante, e agora situam-se em estados de espírito opostos: ela, Luck, a “number one girl”, na sua fase mais materialista, no seu apartamento tão luxuoso como solitário, presa à vida nocturna porque não conhece outra; ele, Ozawa, um dos primeiros clientes de Luck, um antigo soldado japonês exilado na Tailândia, num estado frugal, que por circunstâncias da vida é obrigado a sobreviver com pequenos trabalhos. Os dois passam uma noite juntos a conversar sobre tempos antigos, mesmo que agora Ozawa não tenha dinheiro para pagar o preço da companhia. Quando o filme acompanha o par numa viagem ao interior do país, e abandona as pretensões de diário da noite tailandesa e a miríade de personagens secundárias, ou seja, quando a ficção sobrepõe-se à realidade, o filme revela um olhar distinto sobre este casal desamorado. A herança do colonialismo no interior do país, as raparigas locais que sonham fugir para um destino igual ao de Luck, o confronto com um passado abandonado, ajudam a criar um ambiente misterioso e tenso, onde o tempo parece suspenso (não será acaso o agradecimento a Apichatpong Weerasethakul nos créditos), pelo menos até uma espantosa sequência (um flashback?) numa praia, que redefine o filme até aí.

Raging Bull (1980)

Raging Bull (1980)

o meu texto sobre Raging Bull (1980) de Martin Scorsese pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com

Five Easy Pieces (1970)

Five Easy Pieces (1970)

o meu texto sobre Five Easy Pieces (1970) de Bob Rafelson pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com

agosto 25, 2016

cobertura Curtas 2016

Limbo (2016) de Konstantina Kotzamani

os meus textos de cobertura ao festival Curtas 2016 podem ser lidos aqui:

- parte um: antevisão
- parte dois: à procura de encantamento
- parte três: palmarés, certezas e incertezas

Ace in the Hole (1951)

Ace in the Hole (1951) de Billy Wilder

o meu texto sobre Ace in the Hole (1951) de Billy Wilder pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com

março 23, 2016

Beixi Moshuo (Behemoth, 2015)

Beixi Moshuo (Behemoth, 2015)

Beixi Moshuo (Behemoth, 2015), de Zhao Liang, China 8/10
visto no Porto/Post/Doc - texto original aqui

Behemoth é o nome de uma criatura mitológica que se alimentava de montanhas e não é por acaso que Beixi Moshuo (Behemoth, 2015), de Zhao Liang, exibido na competição, começa com uma série de explosões numa mina, avisando que neste filme o homem substitui-se ao monstro destruidor. Numa adaptação livre do texto da Divina Comédia de Dante, a terra transformada pela intervenção do homem surge como a imagem de um inferno desolado, numa sucessão de imagens de uma beleza natural aterradora, como uma imagem rasgada a meio pela divisão entre as pastagens verde e o negro do carvão minado. O filme intercala imagens alternadas da realidade, onde um corpo nu deitado no chão rodeado de espelhos serve de ilustração para uma voz-off que entoa frases poéticas, com imagens documentais que mais parecem uma realidade alternativa. Confrontados com os confins negros das minas de carvão, substituto do purgatório, e dos trabalhos infernais numa metalurgia, parece que estamos a ver um filme de ficção científica, como se estivéssemos a observar um planeta estranho e irreconhecível, no meio de uma escala difícil de compreender para o olhar humano.

Perante este panorama desolador, o filme atribui um lado humano à sua composição, que sobressai pela sua mensagem, quer pelos rostos dos mineiros cobertos de negrume, que todos os dias inutilmente tentam lavar da sua cara e dos seus corpos, quer pelas histórias humanas que começam a aparecer, este é o mito de Sísifo moderno. Quando Zhao Liang filma uma cidade fantasma de prédios novos nunca ocupados, perante os rostos e as mãos destruídas dos trabalhadores sacrificados, as consequências desta aniquilação ambiental são assombrosas, como um murro. Apesar de toda a sujidade e negritude que as imagens finais evocam, como os frascos de líquido negro retirados dos pulmões de trabalhadores doentes, estas não podiam ser mais claras: este caminho é o da asfixia.

In Jackson Heights (2015)

In Jackson Heights (Em Jackson Heights, 2015) de Frederick Wiseman

In Jackson Heights (Em Jackson Heights, 2015) de Frederick Wiseman, EUA, 9/10
visto no Porto/Post/Doc - texto original aqui

Com In Jackson Heights (Em Jackson Heights, 2015), Frederick Wiseman, cuja carreira se aproxima dos 50 anos, continua o seu mapeamento exaustivo da sociedade americana, detendo-se, desta vez, sobre um bairro profundamente multicultural em Nova Iorque. Na sua procura contínua de histórias, encontra uma comunidade vibrante mas também um bairro que atravessa uma crise de identidade. Por um lado, a ameaça económica da gentrificação, simbólica de uma uniformização ao estilo de vida americano, empurra aos poucos os habitantes e os pequenos negócios para fora do bairro, dando lugar a rendas mais altas e multinacionais. Por outro lado, a população não deixa de celebrar a sua diversidade e origens, como forma de afirmação cultural e de subsistência, ao mesmo tempo que procura integrar-se na sociedade americana. Wiseman ocupa o filme com diferentes episódios, que ora ilustram a enorme diversidade étnica presente no bairro, ora retratam as tentativas de manter uma identidade própria debaixo da ameaça de mudança.

É nesta resistência ao abandono da cultura que dá identidade ao bairro, e na sua vontade paralela de abraçar o estilo de vida americano, que Wiseman encontra a sua história. No fundo, Wiseman procura afirmar que a resistência, este lutar pelos interesses próprios, é tipicamente americana e o tecido da sociedade americana. É um regresso de Wiseman a temas anteriormente explorados nos seus melhores filmes, onde contrasta a conduta exigida pela sociedade com a rebeldia a essa formatação. Esta é uma questão já presente no seu segundo filme, High School (1968), agora apresentada noutra escala. É quando Wiseman filma as diferentes formas de resistência política, presente nos vários encontros de grupos de activistas, que este parece fornecer uma resposta para a crise que encontra. Apesar da duração excessiva (e de algumas imagens mais impressionáveis) é uma aventura recompensadora.

The Wolfpack (2015)

The Wolfpack (A Matilha, 2015) de Crystal Moselle

The Wolfpack (A Matilha, 2015) de Crystal Moselle, EUA 7/10
visto no Porto/Post/Doc - texto original aqui

A grande descoberta dos primeiros dias do festival foi The Wolfpack (A Matilha, 2015) de Crystal Moselle, exibido na sessão de abertura fora de competição. Um documentário sobre um grupo de seis irmãos que chega à adolescência sem quase nunca ter saído do apartamento em Manhattan onde vivem, e cujo único acesso ao mundo exterior é através dos filmes que vêem e que passam os dias a recriar apaixonadamente. Este documentário mostra uma das mais bizarras e fascinantes histórias dos últimos tempos, e um olhar inesperado sobre a cinefilia. Uma história surpreendente a todos níveis, para a qual muito ajuda a abordagem de Crystal Moselle, que não dá qualquer contexto à acção, excepto as próprias palavras dos diferentes irmãos.

Filhos de um pai religioso que os fechava à chave em casa, em vez de irem à escola eram ensinados pela sua mãe, e o único ponto de contacto com o mundo fora do apartamento é uma extensa colecção de filmes, através da qual constroem a sua própria mitologia de como funciona o mundo lá fora: a família é importante por causa do The Godfather (O Padrinho, 1972), a história americana é aprendida a partir de JFK (1991), etc, ou seja, todos os filmes eram para eles como documentários. É o cinema como meio de educação e ensinamento moral, como encarregado de educação. Se o cinema sempre foi uma forma de escape, torna-se aqui também como um meio de expressão, de sobrevivência perante a sua realidade mais próxima. A forma como Crystal Moselle analisa as relações familiares evoca o espanto de Grey Gardens (1975) ou Capturing the Friedmans (2003), mas o que fica desta história extraordinária é a esperança nestes irmãos na sua redenção.

Stories We Tell (2012)

Stories We Tell (2012)

o meu texto sobre Stories We Tell (2012) de Sarah Polley pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com

Talaye Sorkh (Crimsom Gold, 2003)

Talaye sorkh (Sangue e Ouro, 2003)

o meu texto sobre Talaye sorkh (Sangue e Ouro, 2003) de Jafar Panahi pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com

fevereiro 25, 2016

Stagecoach (1939) de John Ford

Stagecoach (1939) de John Ford

o meu texto sobre Stagecoach (1939) de John Ford pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com

Strangers on a Train (1951)

Strangers on a Train (1951) de Alfred Hitchcock

o meu texto sobre Strangers on a Train (1951) de Alfred Hitchcock pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com

Written on the Wind (1956)

Written on the Wind (1956) de Douglas Sirk

o meu texto sobre Written on the Wind (1956) de Douglas Sirk pode ser lido no ÀPaladeWalsh.com